A autoimunidade do brasileiro

Por: Felipe Sandrin | 13/07/2017 00:00:00

A internet trouxe à tona uma face do Brasil que sempre existiu, mas que não acreditávamos na sua existência. Para o bem e para o mal. Para o delírio dos que hoje gritam “eu avisei que ia dar nisso”, para a tristeza dos que, com punhos cerrados, ordenam mais diálogo e menos violência.
Assistimos a testa de um bandido ser tatuada, vimos pessoas arrecadando dinheiro para supostamente ajudar o marginal, vimos essas mesmas pessoas sumindo com o dinheiro que, em teoria, iria apagar o outdoor do crime cravado naquela cabeça vazia. Vimos pessoas discutindo por dias sobre o direito do criminoso e sobre o direito daqueles que por ele seriam lesados. Cansamos de ver a testa do moleque no nosso celular, na tela do nosso computador.
Nesta semana, um policial foi morto por marginais bem armados. Um vídeo detalhado traz o exato momento em que aquela pessoa paga para nos proteger desaba, já sem vida, em uma calçada de mais um bairro miserável deste país. Apenas mais um bairro, apenas mais um policial, apenas mais um entre tantos relatos desse país atolado em sangue e lodo.
Lula condenado. Quantos morreram pelas mãos dele? Mas e pelas mãos daqueles que nunca foram e nunca vão ser condenados? Que herança maldita é essa em que se derruba a cereja Dilma e se mantém o bolo Temer?
Ânimos exaltados como nunca. A internet deu voz a todos e todos querem ser ouvidos. A frustração escoa por nossos poros, na falta do grito que nos alivie, as pessoas expõem a raiva e carnificina como sendo solução. Uns gritam estarem prontos a morrer por Bolsonaros, outros dizem estarem prontos a matar caso Bolsonaros cheguem à presidência. Nessa de morrer por alguém e matar por alguém, há alguma diferença?
Reforma trabalhista, reforma da previdência, reforma, reforma e reforma. Feito casa velha caindo aos pedaços, mas que merece ser conservada por ser patrimônio cultural. Eis o nosso Brasil, um patrimônio da humanidade, com nossas florestas, nossa alegria, nosso povo em essência, seus defeitos e qualidades. Se não dá para começar do zero? Bora reformar! Mas que mãos fazem tal reforma? As mesmas que lascaram com tudo.
Nada muda. Esse é só mais um texto, o Lula é só mais um dos bandidos e o policial é só mais um dos mortos na guerra cotidiana. Diriam alguns: mas se nada muda, de que adianta? Responderiam outros: se as unhas continuam crescendo, por que cortá-las?
Não ligo a TV. Tudo que sei sobre o que está acontecendo é por não ter conseguido evitar saber. Não opino mais nessa guerra por saber quem é o “menos pior” dos políticos e nem me surpreendo quando a cenoura come o coelho.
O brasileiro ascende para os últimos graus da loucura, mas fazemos isso para sobreviver. A morte virou nossa vizinha, às vezes ela chega com som alto e tira a paz, mas damos um jeito de dormir mesmo assim. Se tivéssemos nossas faculdades mentais em dia, seria impossível aguentarmos essa rajada de informações abomináveis que chegam todos os dias.
Já virou rotina o que a sanidade jamais nos permitiria aceitar com naturalidade. Foi o jeito que encontramos de sobreviver. Nada nos apavora tanto que não caiba na frase: esse é o Brasil!


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 737
22/11/2019 06:00:05
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA