Paulo Sant’Ana: a arte da despedida

Por: Felipe Sandrin | 20/07/2017 00:00:00

Todo gaúcho com mais de 20 anos de idade tem alguma ligação com a figura de Paulo Sant’Ana. Afirmo isso não com a autoridade de quem era um fã declarado do referido comunicador. Afirmo isso pois, cavocando minhas lembranças, encontro uma das singelas formas através das quais ele me influenciou.

Penso em Sant’Ana e primeiramente lembro do clube para o qual sempre torci: Grêmio. Mas mesmo com Paulo sendo tamanho personagem dentro de nosso folclórico futebol, por que tê-lo como a lembrança que nos liga ao Grêmio? Porque qualquer outro torcedor tão mais fanático do que o próprio Sant’Ana não poderia ocupar tal ligação? Bem, no meu caso, Paulo Sant’Ana foi o meu exemplo da boa rivalidade. Eis a imagem mais profunda que tenho dele: o dito gremista doente vestindo uma camisa do Inter enquanto entoava respeito ao que ele chamava de “o grande e respeitado rival”.

Sant’Ana disse para muitos que ser gremista era o sonho delirante de não conseguir ser outra coisa na vida. Mas, além disso, ele indiretamente nos mostrava que só poderia existir a dádiva do futebol se existisse a competição e que só poderia existir competição se existisse um rival. Logo, não há futebol se não houver os adversários. Quem então respeita verdadeiramente esse esporte só pode fazê-lo se respeitar prontamente seus opostos.

Essa é a grande lição que Paulo Sant’Ana me ajudou a entender. Se não sou Dilma, não quer dizer que seja Temer. Se não sou Bolsonaro, não quer dizer que eu seja Maria do Rosário. E se eu sou Grêmio, isso não quer dizer que eu serei sempre contra aqueles que amam o Internacional.

Lembro-me de cenas comuns da minha infância. Eu chegando com fome, a mesa posta e meus pais me esperando. A TV estava ligada e muitas vezes alguém comentava “Quero só ver o que o Sant’Ana vai falar hoje”. E ele nunca decepcionava.  Lembro-me daquele triste dia em que ele, com lágrimas nos olhos, anunciou a queda do voo 3054 da TAM. Chorei junto a uma frase que nunca esqueci “A tênue linha da vida”.

Assim são as pessoas que mais modificam as outras. Elas o fazem de maneira silenciosa, em coisas banais como o futebol. Sant’Ana viria a se tornar o meu ponto de paz dentro do futebol. Ele – provavelmente sem saber – ensinou a muitos como eu sobre como uma mísera vida pode ser esplêndida se soubermos olhar para o grande palco dos espetáculos.

Eu não era um fã de Paulo Sant’Ana, eu não o acompanhava e nem ficava ansioso por ler suas colunas ou ouvi-lo no rádio, mas isso hoje me faz perceber o quão grande ele era.

Em 2015, escrevi em uma de minhas canções: “Chegou novembro, livre-se de todas as cinzas. Perceba, a vida é a arte da despedida”. Em 21 de maio de 2011, Paulo Sant’Ana publicou: “Descobri em mim há pouco tempo uma capacidade: eu estou apto para todos os encontros. Se, como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro, então eu sou um artista. Mas eu contrariaria o grande poetinha, afirmando que a vida consiste, também, na arte da despedida”.

Obrigado, Paulo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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