O que os comerciais não lhe contam

Por: Felipe Sandrin | 18/09/2015 00:00:00

Entro em uma loja, pego um carrinho de compras na entrada e me dirijo ao primeiro corredor. As prateleiras estão cheias, inúmeras marcas para os mesmos produtos, diferentes embalagens e opções de peso. Observo o que vou comprar e as etiquetas de preço: maionese, 22 minutos de sua vida. Leite condensado, 17 minutos de sua vida. Queijo mussarela, 4 minutos de sua vida ao quilo.

Contorno os corredores observando a lista com os itens que preciso – ou penso precisar. Encho o carrinho, mas ainda há um espaço para passar na parte dos eletrônicos. Tenho muitas coisas velhas e é uma boa hora para renovar minhas tecnologias. Máquina fotográfica em promoção, apenas 4 dias (96 horas) de sua vida. Smartphone, 19 dias (456 horas) de sua vida.

Dirijo-me ao caixa para pagar a conta: 44 dias (1.056 horas) da minha vida. Esse é o valor final de mais um dia de compras, algo normal em minha rotina de cidadão moderno. 

Questiono: se constasse nas etiquetas de cada produto que você compra o número de horas que você perderia ao adquiri-los, será que você realmente compraria tudo o que normalmente compra?

Pois vejam bem, essa não é uma situação hipotética, eu não estou desenhando uma fantasia ou escrevendo um roteiro. Pense: de onde vem seu dinheiro, do seu trabalho? O que você dá para seu trabalho? Sim, suas horas. Logo, dinheiro = tempo. Seu tempo.

Quando compramos algo, vemos o valor desse produto representado em dinheiro, é fácil dissociarmos o papel moeda da verdadeira matéria-prima que pagará cada coisa que compramos: nosso tempo.

Deixe-me questioná-lo de outra maneira: se eu lhe desse um automóvel agora, um que você há muito tempo deseja, você me daria como pagamento dez anos de sua vida? Acredito que não. Se lhe parece absurdo esse acordo, por que então você se dispõe a dar dez anos de sua vida a uma loja que vende carros? Simples: o marketing deles é melhor que o meu. Você não se sente dando horas e mais horas de sua vida para adquirir esse veículo, pelo contrário: você lembra os comerciais e sente como se estivesse naquele carro o seu precioso viver.

Pense. Por um segundo, visualize sua casa, sua cozinha e sala. Observe os talheres e copos, os enfeites na estante, todas as TVs que já teve, os aparelhos celulares. Imagine o preço que pagou, mas não em dinheiro, em seu tempo de vida, seus dias, meses e anos de trabalho doados exclusivamente a essas coisas. Pensou? Agora, deixe-me mais uma vez perguntar: você realmente teria comprado todas essas coisas se cada uma destas lhe custasse horas de vida? Talvez hoje você não perceba, mas se lhe couber a velhice, os dias de reflexão, tenha certeza de que essa sensação baterá a sua porta.

Compramos, trocamos, negociamos. Isso faz parte de nós, facilita nossas vidas. Mas será que precisamos de tanto? Tanto espaço no celular, na garagem e no guarda-roupa? 

Veja bem, não se trata de algo que podemos recuperar, não há forma de se receber tempo. Tudo bem o prazer que nos faz lembrar que estamos vivos, mas que prazer há nos entulhos de produtos que se acumulam pela casa?

Se a vida é composta de tempo, me diga você, quanto vale a sua? Sobre quais prateleiras repousam os seus anos perdidos?!


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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