Agora eu só ando de Uber

Por: Felipe Sandrin | 27/07/2017 00:00:00

E não é só por causa do preço muito mais baixo, eu ando de Uber porque por anos fui refém de um péssimo serviço e do descaso de muitos taxistas. Obviamente, conheci ótimos profissionais do táxi, mas aí vinha outro ponto que me irritava profundamente: esses bons profissionais quase sempre estavam acabados de tanto trabalhar para os verdadeiros donos dos pontos de táxi.
Bem verdade faz tempo não pego um táxi em Bento: os últimos que utilizei foram em Porto Alegre e Caxias do Sul e prestaram um péssimo serviço. É isso que acontece quando você não tem opções. Muitos grupos com interesses próprios se instauraram junto aos taxistas, muita gente desagradável dominou o serviço. Não é à toa que os taxistas são odiados no trânsito, eles justificam barbáries pela frase “é meu ganha pão, estou trabalhando”.
Que me perdoem os ótimos profissionais, mas que pensem no meu conselho: larguem os táxis e vão para o Uber também. Vale a pena. Conheci dois motoristas em Florianópolis que fizeram isso, estão ganhando mais e se incomodam muito menos.
É preciso entender que as pessoas somente tomavam um táxi porque não havia outro serviço, ninguém sentia prazer nisso. A população era forçada a aceitar esse péssimo atendimento. Não há, portanto, forma de barrar aplicativos como Uber, todas as cidades que tentaram isso falharam.
Estamos entrando em uma era em que a opção se torna inerente à vida. As pessoas querem se sentir livres não só para escolher, mas para dar a resposta. Quando os bancários entraram em greve, mais de um milhão de pessoas passaram a usar os aplicativos de bancos e pararam de ir às agências. A cada manifestação que taxistas fizeram contra o Uber, mais o Uber cresceu. Por quê? Ora, porque se pessoas que não prestam um bom serviço ficam descontentes com a concorrência, obviamente quem não gosta do serviço dessas pessoas automaticamente adere a essa odiável concorrência. Princípio básico: o inimigo do meu inimigo é meu amigo.
Faz vinte anos que escutamos falar sobre “barrar essas coisas da internet”. Eu entendo o desespero dos taxistas, os gritos de “nós pagamos impostos”. Concordo com muitos argumentos, mas isso não extingue o simples fato de que a população cansou de ser maltratada dentro de muitos táxis. Ora, se eu tenho uma loja e pago impostos isso não quer dizer que eu possa judiar do meu cliente – a menos, é claro, que somente eu tenha aquele produto a oferecer.
A maioria dos taxistas que conheci não eram donos dos pontos, assim, por serem funcionários geralmente explorados, a transferência de insatisfação ocorria automaticamente do motorista para o passageiro. Como eu disse: anos de descaso fizeram o Uber chegar como um salvador. E não é só aqui. Nos Estados Unidos, o ponto de táxi que chegava a custar US$ 1 milhão, hoje não custa mais do que US$ 250 mil. Ah, e aqueles que acham ruim a invasão de um aplicativo para transporte, preparem-se: a previsão para os próximos dois anos é de mais quatro serviços desse tipo chegarem com tudo ao Brasil.
Não tem jeito. Aceitar dói menos. Infelizmente, os poucos bons profissionais vão pagar pela maioria péssima. Fica essa dica aos bons: baixem o aplicativo, se cadastrem e vão ser felizes prestando serviço a algo em que as pessoas estão aprendendo a confiar e gostar. 
Essa é uma das vantagens de um mundo que se comunica: se você for péssimo no que faz, todos vão ficar sabendo e sempre haverá alguém disposto a fazer melhor.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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