Você pode criticar, desde que não me critique

Por: Felipe Sandrin | 17/08/2017 00:00:00

Escrevo há mais de dez anos para jornais. Isso me traz alguma autoridade? Claro que não. No geral, fazer algo por um longo tempo pode lhe trazer a soberba junto da dita experiência na área. O que muda então o fato dos meus mais de dez anos escrevendo a jornais? Eu aprendi que todo mundo é repleto em ideais, desde que tais ideais não afetem seus planos.

Fiz um texto falando sobre e ineficácia dos setores públicos e seus servidores e fui atacado por quem? Por alguns taxistas e seus parentes. Sim, eles aguardavam ansiosos o desprendimento do assunto Uber para então poder destilar em mim a raiva que fez justamente eu escrever sobre como é bom a população ter outras alterativas além dos táxis.

Alguém grita que os artistas são na sua maioria vagabundos. Eu me ofendo? Com certeza não. Alguém diz que jornais aceitam colunistas medíocres. Eu me ofendo? Obviamente não. E por que deveria? Digo que o funcionalismo público é um amontoado de gente ineficiente que, por estarem garantidos nos respectivos cargos, rendem mediocremente. Um bom funcionário público se ofende? É claro que não. Ao bom funcionário público e ao bom taxista cabe a consciência de quem trabalha com ética e exerce a profissão da melhor forma possível. Observem: sempre quem se ofende é quem menos tem a contribuir.

O Brasil precisa garantir seu futuro. “Mas não mexa na minha aposentadoria”. O Brasil precisa rever seu código trabalhista. “Mas não toque no dinheirinho que vai para o sindicato”. É sempre um “mas” que revela os hipócritas, os inseguros, aqueles que simplesmente aprenderam a depender tanto de um sistema a ponto que, se esse sistema mudar, essas pessoas se tornam baratas tontas.

Nenhuma ofensa pode ofender aquele que tem consciência do que realmente lhe cabe. As pessoas se julgam tão diferentes de Lula e Temer, mas são igualmente egoístas. Se chegassem ao poder fariam tanto quanto ou até pior que eles. E isso se prova no simples fato de que os ditos mais revolucionários seres só são revolucionários até que o processo de mudança os atinja.

“Queremos que o Brasil mude”. Você já parou para prestar atenção em quem geralmente diz essa frase? Se o Brasil mudar, essas pessoas geralmente estarão lascadas, pois a mudança benéfica ataca diretamente o modo com o qual elas aprenderam a viver. Quer descobrir até onde vai a ética de alguém? Estenda o assunto até o ganha pão dessa pessoa, aí sim você arranca o personagem ético e revela a verdadeira face de um brasileiro culpado pelo que o Brasil é.

Não mudo uma vírgula sobre o que escrevi nas minhas duas últimas colunas, pelo contrário, reitero, visto o objetivo atingido. 

Não somos o que somos por acaso, assim somos pela nossa própria medíocre contribuição para que isso fôssemos e seguíssemos sendo.

A carne dói somente quando é nossa e a culpa ecoa na boca de quem precisa gritar ser a exceção. Mas a real exceção nunca fala. Se os cães ladram e a carruagem passa, então as palavras só mordem aqueles que definitivamente estão cheios de culpa.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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