Qual a vista de sua janela?

Por: Felipe Sandrin | 09/11/2015 00:00:00

As boas ações são como pinturas, músicas e textos: possuem vida própria. Todos somos, então, um pouco artistas, mesmo que não tenhamos um espaço no jornal, não saibamos tocar algum instrumento ou tenhamos talento para, na mistura de cores, reproduzir em tela um momento, não saibamos usar tão bem as palavras, nosso vocabulário não seja tão extenso, ou não encontremos tanta beleza em um pôr-do-sol, como outros encontram. Ainda assim, com boas ações, todos somos artistas.

Pois o que é arte se não aquilo que tem vida própria? Seguidamente recebo recados dizendo: “Aquele seu texto me tocou. Hoje ouvi sua música”. Muitas vezes, quando questiono qual texto e música, as respostas me levam para trabalhos antigos, algo que publiquei anos atrás e que só agora chegou para aquela pessoa. Pois é isso: a arte está nas impressões que causamos e ressoam infinitamente dentro de outros.

Pense por um momento em como as pessoas lhe veem, diferentes pessoas: aquela que é sua amiga há anos, quem lhe viu nascer, aqueles que encontra casualmente e inexplicavelmente lhe trazem uma sensação boa. Pense em que impressão aquela pessoa tem de você. Se não conseguir imaginar, pense você nessa pessoa e questione-se: “como a conheci e quando eu passei a sentir que essa pessoa era bem-vinda em minha vida?”.

Certa vez, enquanto tomava chimarrão e observava um pai brincando com seu filho, tive a aflitiva sensação de já ter visto aquele rosto. A todo o momento, parecia que aquele pai iria me cumprimentar e eu precisaria sorrir, fingindo conhecê-lo. Eu sentia que o conhecia, mas de onde? Pensei estar me confundindo quando ele passou por mim e pouco me notou. Mais tarde, lembrei que, um dia antes, eu havia deixado aquele mesmo pai com seu filho passarem em uma faixa de segurança. Lembro-me de ele ter acenado em sinal de agradecimento.

Se pequenos gestos nos marcam de forma tão profunda, imaginem o quanto não cabe na mais sincera gentileza. Quanto seu dia poderia ser melhor pelo simples fato de agradecer sorrindo, ouvir atentamente ou aconselhar sem abastecer sentimentos ruins?

Escuto tantas pessoas reclamando de outras pessoas e de seus ambientes de trabalho que se torna claro o sacrifício da rotina para elas. É assim que a vida nos cansa: quando paramos de ser artistas dela, quando paramos de semear as oportunidades de lá na frente alguém nos reconhecer por um gesto simples e gentil.

Não confunda o cansaço de fazer com o cansaço de viver. Viver sem a expectativa de vermos uma árvore que plantamos crescer é viver pela metade. Acredito que a vida seja um pouco isso: uma janela com vista para o que semeamos lá fora, que poderá ser um jardim ou toneladas de brita.

E veja só: você não precisa gostar de todos! Há tanta sapiência no existir que você pode escolher até mesmo quem fará parte de sua vida. O que não se pode é esquecer de ser artista, de pintar nosso melhor no que acreditamos que valha a pena.

Há muito caos lá fora. Por vezes, parece que caminhamos rumo ao pior. Talvez este seja o momento de cuidarmos melhor do que há lá dentro, em nós. Só assim, poderemos ser também o jardim de outros.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 772
08/07/2020 00:05:53
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA