Do amor aos impulsos

Por: Felipe Sandrin | 09/01/2017 00:00:00

Sempre fomos guiados pelos desejos, nosso freio entre o querer e o poder era dado junto aos limites do que conseguíamos produzir no mundo. A sensação de que se tivéssemos 99 opções só ficaríamos com uma nos levou a criar mecanismos sociais sofisticados. Estabelecer a crença que a cobiça era um pecado tornava-nos menos dispostos ao consumo em um mundo que, bem verdade, tinha pouco a nos vender. Os valores modernos romperam a barreira da produção, passamos a produzir quase que ilimitadamente e colocamos no armário a velha sensação de que, se a nós sobra, a alguém falta.
O preço de um consumo desenfreado se encontra com os ‘prejuízos ao planeta’, e essa ideia de que destruiremos o globo apenas reforça a crença do novo homem, do homem-deus. O planeta está em apuros? Não, o ser humano está em apuros, sacolas plásticas e derretimento de geleiras não vão impedir que nosso pequeno ponto azul siga a orbitar o sol.
Fica claro que o grande dano liberado pelo poderio dos impulsos livres se reverte quase que exclusivamente a nós mesmos. Se tudo se produz com tamanha facilidade que nem nos permite ver como cada produto chega às prateleiras, logo, a ideia de valorizar-se o bem consumido passa a ser o próprio pecado: “Pare de apego. Dessa vida não se leva nada”. Ao contrário do que nos parece, a ideia do desapego é apenas mais uma forma de liberação consumista.
Por que não então gastarmos dinheiro com coisas menos táteis? Uma viagem quem sabe? Eis o mais brilhante dos abraços ao marketing consumista. Hotéis, aviões, classe A, B e C, com e sem café da manhã, dois dias em cada país. A indústria da viagem vendeu a experiência e nós a compramos com o mesmo ímpeto com que em outras épocas abraçamos a Bíblia. Viajar se tornou uma experiência revolucionária. Almoçar em Porto Alegre e jantar em Paris. O homem cruzou a barreira do mundo desconhecido e se tornou rei: claro que isso tudo só é possível na medida em que sua conta bancária suporte tais “desprendimentos materiais”.
Consumir se tornou uma religião. Consumimos em frente à TV, na parada de ônibus enquanto rolamos a tela do celular. Consumimos trabalhando e descansando. Obviamente se tudo está à venda nos tornamos então, acima de tudo, consumidores. Essa automatização torna nosso cérebro e coração algo como engrenagens, logo, somos seres de lata. E qual o sonho do homem de lata? 
Somos esse homem de lata que busca um coração, mas ao contrário dele nós já nascemos com um, nosso problema não é a fabricação deste órgão pulsante, mas como podemos encontrá-lo na bagunça interior que nos tornamos.
Amor demandava muito tempo, paixão demandava menos, mas foi no impulso que nos encontramos. Por que sair de casa sabendo o que preciso comprar se as vitrines me dizem com mais exatidão as novas tendências do mercado? Imediatistas diante o produto ideal e diante nossos relacionamentos. Agarre a promoção, mas não com exagerada força que não lhe permita soltar com rapidez caso o cenário assim peça.
Gastamos o suficiente com um produto que já sabemos que sairá de linha, estamos acostumados e isso não mais nos abala. Mas e quanto às relações? Elas também se tornam obsoletas? Veja só o mercado que há lá fora. Prender-se a pessoas é quase um crime, pois pense quantas pessoas vagueiam por aí, todas ao seu alcance, umas mais ideais a ti que outras. Estar com alguém pode ser a barreira que também lhe impede de conhecer alguém.
Eis o preço de sermos consumidores, pois também nos tornamos produtos. Adoecemos silenciosamente a cada desejo que se realiza. Mas se não há pecado em consumir por que me angustia tanto a sensação de que o tempo me consome?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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