O delicado hábito de julgar

Por: Greice Scotton Locatelli | 09/08/2017 12:43:05

Por mais que saibamos que muitas vezes é apenas uma perda de tempo, aqui no SERRANOSSA temos o hábito de acompanhar a repercussão que algumas notícias de maior relevância têm nas redes sociais, através dos comentários que as pessoas fazem. Às vezes até surge algum que pode fazer a diferença, mas a esmagadora maioria só serve para provar que a desinformação é uma constante. Esse é um fenômeno que está disseminado por toda a internet e mostra como alguns internautas são desprovidos de uma noção básica de respeito.
No último final de semana uma mulher foi brutalmente assassinada no bairro Juventude. O corpo foi localizado na manhã do dia seguinte, em um terreno baldio. Moradores relataram ter ouvido gritos por volta da meia-noite e meia. A princípio, a informação seria apenas uma pista de quando o crime teria ocorrido para ajudar na investigação. Mas tão logo veio a público, alguns internautas começaram a se manifestar, acusando quem tinha ouvido os gritos por não ter ajudado. Vale destacar que essa informação não foi detalhada, ou seja, em nenhum momento foi dito se quem ouviu o pedido de socorro chamou a Brigada Militar ou se saiu de casa para ver o que estava acontecendo, por exemplo. 
Quando o assunto é julgar, “detalhes” como esses não importam. O que as pessoas esquecem de considerar é que há uma série de possibilidades. 
A pessoa que ouviu os gritos pode: 1) ter sido acordada abruptamente e não ter conseguido ter a noção de onde vinham ou do que eram. 2) ter decidido voltar para a cama, por estar acostumada a pessoas sob efeito de álcool ou drogas gritando na rua. 3) ter o sono pesado e não ter conseguido reagir a algo que durou poucos segundos. 4) ter acordado, mas ficado com medo de sair para ver o que está acontecendo. 5) ter ligado imediatamente para a Brigada Militar. 
A Brigada Militar, por sua vez, pode: 1) não ter sido acionada. 2) ter sido chamada, mas ter demorado a chegar por estar atendendo outra ocorrência. 3) ter sido acionada, mas não ter considerado que os dados repassados apontassem para um possível crime. 4) ter se deslocado imediatamente e em alta velocidade, mas levado mais tempo para chegar do que o assassino para esfaquear a vítima. 5) ter chegado quase que imediatamente por estar nas proximidades, mas não ter elementos suficientes para saber por onde começar a procurar. 
Vamos supor que a Brigada tenha sido chamada e que a viatura chegou logo à rua onde mora a pessoa que ligou avisando sobre os gritos. Ninguém – nem mesmo quem ligou – tem certeza de que houve um crime, tampouco onde ocorreu exatamente. Os policiais podem: 1) ter feito uma ronda na rua, mas não ter visto o corpo, desovado em um terreno baldio e escuro, durante a madrugada. 2) ter verificado em uma rua próxima, por não ter certeza do local exato baseado na informação do denunciante. 3) ter desconsiderado a informação por não haver mais dados e gritos durante a madrugada serem comuns naquela região. 
Quem sou eu ou você para julgarmos as decisões que quem ouviu os gritos ou foi chamado para atender a ocorrência tomou?
Esse caso me fez lembrar de uma música do Engenheiros do Hawaii chamada Coração blindado. Um dos trechos diz o seguinte: “... fácil falar e fazer previsões depois que aconteceu. Fácil pintar o quadro geral da janela de um arranha-céu. Sem ter que sujar as mãos, sem ter nada a perder, sem o risco de pagar pelos erros que cometeu. Com a coragem que a distância dá, fica mais fácil...”. Assim é julgar: criticar o que quem estava envolvido fez ou deixou de fazer, sem a mínima noção do que levou a pessoa a tomar aquelas decisões.
Moral da história: se você não estava lá ou não tem certeza do que realmente aconteceu, evite julgar, sobretudo publicamente, como na internet. Se você não consegue deixar de julgar, evite ofender as pessoas que atenderam a ocorrência, que a testemunharam ou que a noticiaram. Você não estava na pele delas para saber por que decidiram fazer o que fizeram e ainda corre o risco de ser processado por isso. Lembre-se: um dia pode acontecer com você ou com alguém de quem você gosta. E certamente você não vai gostar de estar do outro lado, sendo alvo de julgamento.
Em tempo: nesta semana conversei com o capitão Caetano, do 3º Bpat, que confirmou que a BM não foi acionada na noite em que ocorreu o crime.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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