Das coisas que não entendo

Por: Greice Scotton Locatelli | 15/09/2017 12:19:03

É fácil julgar superficialmente os outros se não entendemos os motivos que os levaram a um determinado comportamento. Exemplos simples: eu não entendia como as pessoas podiam amar bichinhos de estimação como se fossem filhos, até ter um cachorro – e mimá-lo. Eu não conseguia compreender por que quem torcia para Grêmio ou Inter se preocupava com resultados de times de outros Estados até aprender a torcer de verdade e entender a sistemática das competições de futebol. Eu não entendia por que as pessoas reclamavam do comportamento de outras no trânsito até dirigir, assim como não compreendia o que levava tanta gente a reclamar do custo de vida até ter minha própria casa e precisar fazer compras – sim, eu concordo com quem se queixa de que os preços estão absurdos em todos os setores.
Estar envolvido em algo a ponto de entender os motivos que justificam determinados comportamentos facilita muito quando o assunto é conviver. E, nesse contexto, a profissão de jornalista tem um de seus principais méritos: somos privilegiados por poder conhecer as mais variadas visões de mundo sem necessariamente vivê-las. 
Mesmo assim, sigo sem entender algumas situações do nosso cotidiano: como uma pessoa que perdeu tragicamente alguém querido consegue sobreviver – ironicamente isso já aconteceu comigo e até hoje não sei como –, ou quão intenso é o sentimento que faz com que alguém queira tirar a própria vida. Também não compreendo por que alguns jovens veem sentido em pichar paredes ou depredar o patrimônio dos outros, nem o que leva outros a rebaixarem seus carros e depois detonar a parte debaixo deles em ruas cheias de buracos e desníveis, por exemplo. Com exceção do que causa prejuízo aos outros – tipo o vandalismo – o  fato de eu não entender não significa que eu posso sair ofendendo quem considera atitudes assim bacanas.
O absurdo da vida, no entanto, é aquilo que não tem justificativa e que mostra por que algumas pessoas não merecem conviver em sociedade. Um caso recente foi registrado em Santa Catarina, mais precisamente na cidade de Jaraguá do Sul. Em uma escola municipal, um grupo de alunas supostamente bem intencionadas se oferecia para encher a garrafa de água que a professora carregava consigo. Detalhe: era usada água do vaso sanitário com comprimidos dissolvidos para que a professora adormecesse e não desse aula. Você pode pensar que é um plano elaborado demais para crianças, mas não é. A “líder” era uma menina de 11 anos, que pedia para que colegas trouxessem remédios de casa, que eram esmagados em um copo e misturados à água da privada. Por sorte, uma das crianças teve consciência de contar para os pais, que alertaram a escola.
Não vamos cair no clichê de por a culpa nos pais da garota. Conheço pais e mães muito bem intencionados cujos filhos aprontam coisas que nem a mais fértil imaginação poderia inventar – já citei neste mesmo espaço como a série “13 Reasons Why”, por exemplo, mostra como os adolescentes conseguem esconder situações gravíssimas até mesmo dos próprios amigos, quem dirá dos “adultos chatos”. Mas também conheço gente que acha graça nas travessuras de seus filhos, sejam elas inocentes ou com consequências ruins, e outros que adoram incentivar o mau-caratismo desde a infância, inclusive dando exemplos práticos no dia a dia. 
O mundo é feito de pessoas diferentes, com seus próprios pensamentos, suas rotinas e seus sentimentos. Talvez essa seja a moral da vida: aprendermos a conviver com essas diferenças. O fato é que – entre o que tem explicação – quanto mais compreendermos, mais fácil será deixarmos de fazer julgamentos superficiais. Quem hoje julga com a mesma veracidade amanhã será julgado. Eis uma das lógicas mais importantes de se ter em mente quando o assunto é a vida em sociedade. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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