Das pessoas que não entendo

Por: Greice Scotton Locatelli | 13/10/2017 13:34:16

Se você me pedir para citar em poucos segundos um dos comportamentos mais intrigantes do ser humano, a meu ver, responderei que não entendo pessoas que jogam lixo no chão. Simples assim. Nada grave, que atente diretamente a vida de outros ou que cause um transtorno complicado de se resolver. Um papel de bala, um maço de cigarros, talvez um chiclete mascado ou uma embalagem qualquer. Para mim, o ato de jogar lixo na rua é um reflexo do pouco caso que a pessoa que o faz tem para consigo própria ou com o mundo em que vive. Sem contar a falta de noção sobre as consequências que esse comportamento pode causar em larga escala – como poluição e enchentes. 

Mas não é só esse tipo de gente que me intriga. Não compreendo, por exemplo, quem julga a sexualidade dos outros ou promove protestos pró ou contra heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, transexualidade ou seja lá qual for a escolha de alguém. Se isso não diz respeito à sua vida, o que você tem a ver com o que outras pessoas decidem ser ou fazer? 

Também não entendo quem defende bandidos, embora considere que direitos humanos devam ser válidos para todos e que um erro – ou uma sequência deles – não faz de alguém um ser que não mereça respeito e condições mínimas de sobrevivência com dignidade. É para isso que existem as punições previstas em lei e, mesmo que por vezes só em teoria, a Justiça.
 Não compreendo quem briga por causa do trânsito, embora sinta muitas vezes raiva de alguns inconsequentes que colocam a vida de terceiros em risco com a sua irresponsabilidade ao volante, ou aqueles que adoram fazer um escândalo em público para chamar atenção para si próprios. Desisti de entender quem maltrata animais por achar divertido, menos ainda quem abandona um bichinho à própria sorte sem a menor piedade e de forma perversa. Na mesma categoria, não consigo conceber quem desmata o meio ambiente. 

Já entrevistei dezenas de mulheres vítimas de violência doméstica (psicológica e/ou física), mas isso não foi suficiente para que eu entenda quão baixa é a autoestima delas a ponto de mantê-las aprisionadas em um relacionamento tóxico e acreditarem que o parceiro vai mudar após cada novo incidente, cada vez mais grave. 

Não entendo como as pessoas sobrevivem a grandes perdas, nem por que é tão importante para algumas contar aos quatro ventos tudo que se passa em suas vidas – na maioria das vezes de maneira fantasiosa. Não compreendo como aqueles que roubam dos outros – seja em um assalto, por meio da corrupção ou simplesmente superinflacionando um produto em uma lojinha qualquer – conseguem viver sem peso na consciência. 

Fanatismo também é algo que me intriga – acreditar em uma religião, torcer por um time de futebol ou ser adepto de uma filosofia pregada por um determinado partido político exige termos em mente que a nossa liberdade de expressão precisa ser embasada, primordialmente, em respeito. 

Por fim, não entendo essa necessidade que temos de estar o tempo todo julgando e sendo julgados por pessoas que não vivem os nossos dilemas – assim como não vivemos os delas. Talvez essa seja a reposta para tudo que hoje eu não compreendo: o fato de eu não estar na pele de quem se comporta de uma determinada maneira não me permite entender seus motivos, mas não me dá o direito de desrespeitá-la. Exceto jogar lixo no chão. Isso não tem justificativa.

 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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