A feiura aplaude

Por: Felipe Sandrin | 13/10/2017 13:49:13

“A beleza está nos olhos de quem vê”, ideia interessante, mas mentirosa, ela tem adquirido corpo enquanto a maioria das pessoas é incapaz de ver a beleza. Se a beleza está na pessoa que tudo diz contemplar então por que deveria o músico aperfeiçoar os acordes? Por que alguém que canta desafinando no banheiro deveria se esforçar para adquirir técnica vocal? Por que crianças que desenham palitinhos deveriam aperfeiçoar seus traços? 

A beleza nos olhos de quem vê se tornou mais uma daquelas mentiras que milhões de pessoas que não são capazes de ver a beleza passam a repetir até torná-las uma verdade. O homem transcende o próprio homem quando este rompe a fronteira da expressão através da exaustiva repetição. Definir arte? Não é difícil. Arte é a transcendência do próprio artista, é o abdicar do comum para dedicar-se compulsivamente a melhorar aquilo que se apresenta aos outros. Arte é nutrir outros pela admiração da superação. Ela não ocorre nos olhos de quem vê, mas, primeiramente, dentro daquele que de tão apaixonado se torna obcecado pelo aperfeiçoamento do que lhe expresse. 

Em uma sociedade com discursos prontos e pessoas sensíveis era óbvio que o senso comum se tornaria a prática das massas. Na busca por não ferirmos sentimentos e tornarmos cada ser humano único passamos a esconder a tão fundamental diferença: a capacidade de nos aperfeiçoarmos e tornarmo-nos melhores a cada dia dentro daquilo que escolhemos como base de nossa identidade. 

Naturalmente também – dentro desta sociedade sensível e covarde – todos nós reivindicaríamos o mérito e a astúcia. Somos todos cientistas políticos, artistas, críticos literários, profundos conhecedores de música e sentimentos, dotados da capacidade icônica de navegar na internet e encontrar as poucas informações que nos faltam. Sabemos praticamente tudo, por isso opinamos sempre. 

Nota-se facilmente: desde que começamos a fazer a história, isto é, passá-la adiante, somos a geração mais covarde que existiu. Nós nos acovardamos para as mais vagas frustrações, temos medo da ansiedade a ponto de correr atrás de remédios. Demoramos a dormir e acordamos já cansados. Temos um milhão de possibilidades, mas não conseguimos largar aquela que tanto nos faz mal. Nunca tivemos tanto medo de ficar sozinhos. Suicidamo-nos a cada 40 segundos. Temos tanto medo de tudo que aprendemos a fingir felicidade. 

Não, infelizmente a beleza não está nos olhos de quem vê, mas, claro, não devemos dizer isso para todos os ouvidos, as pessoas se ofendem, sentem-se menores, talvez menos especiais do que aquele livro de autoajuda estava propondo: “Como assim eu não sei o que é bonito? Como assim há pessoas menos capazes que outras e eu sou uma destas?” Décadas em que alimentamos a crença do ser único que habita cada um de nós. A armadilha perfeita para nos fazer consumidores de um “eu” que juramos existir e ser o verdadeiro eu. “Seja você mesmo”, já ouviu essa? E de tanto buscarmos algo lá dentro acabamos por nos perder. A criança que há em nós está lá, em um canto, agachada, com medo: mas claro que não iremos admitir isso, somos especiais demais para aceitar o que nos faz sentir inferiores. 

Uma sociedade moldada pelo frustrante “acredite nos teus sonhos”. Falemos a verdade, nem todo mundo nasceu para vencer, a maioria finge querer e, como ficou feio não ter sonhos, sonha-se qualquer coisa. Porque a beleza está nos olhos de quem vê. Coitada das crianças. Não chega o bando de adultos doentes e frustrados hoje, lá vamos nós estragar mais uma geração.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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