Mais vale uma obra feita do que um projeto no papel

Por: Greice Scotton Locatelli | 27/10/2017 08:00:01

Tirei uns dias de folga e, longe da correria e do imediatismo típicos do jornalismo, pude observar com calma a reação das pessoas acerca de um assunto sobre o qual falei inúmeras vezes neste mesmo espaço: o entroncamento da BR-470 com a RSC-453, popularmente conhecido como “Trevo da Telasul”. 

Como jornalista, noticiei dezenas de acidentes graves naquele local, às vezes mais de um no mesmo dia. Vi muitas vidas perdidas naquele trecho, assim como uma série de “quase acidentes” provocados por imprudência ou pela falta de atenção dos condutores, obrigados a cruzar duas pistas simultaneamente em um local de movimentação intensa. Sempre que possível eu evitei ter que transpor o trevo por considerar algo perigoso demais. A antiga rotatória, em forma de gota, há muitos anos já não comportava a quantidade de veículos que circula diariamente por lá. 

Quando anunciaram a obra, confesso que minha primeira reação foi de incredulidade. Depois de alguns anos na profissão, é fácil se desiludir com promessas políticas que nunca saem do papel. Mas, com o passar dos dias, senti reacender uma esperança. O projeto parecia promissor, mas ainda era só um projeto. No dia em que as máquinas começaram a trabalhar, timidamente, um grande alívio tomou conta de mim. Era agosto do ano passado. Desde então, os trabalhos só pararam durante uma semana de chuva intensa. Todo dia, em maior ou menor volume, algo era feito. E, no final, muita coisa foi feita: detonações, escavações, retirada de terra, construção de canteiros, instalação de encanamento, entre várias outras. A obra foi tomando forma na mesma proporção em que a minha confiança de que finalmente alguma atitude havia sido tomada crescia. 

Alguns dias antes da liberação oficial, a abertura das pistas laterais já mostrava que estava mais seguro transitar pelo local e agora, com a nova rotatória em funcionamento, muitos dos antigos problemas foram solucionados. 

Eu sei que essa rotatória alongada é paliativa e que em um mundo ideal um viaduto seria o melhor a ser feito. Mesmo assim, não penso que isso desmereça o projeto. Ao contrário de muita gente que eu vi criticando por criticar, eu percorro aquele trecho todo dia e sei o quanto uma intervenção era imprescindível e urgente. Para dizer o que precisa ou não ser feito, conhecimento de causa é importante, seja ele teórico ou prático. Ouvir pessoas que passam pelo local duas vezes por ano reclamando das soluções encontradas é, no mínimo, deprimente.

Um dos principais pontos polêmicos foi o valor (R$ 7 milhões). Não sou especialista na área, mas como cidadã concordo que o gasto parece elevado para esse tipo de obra. Mas, ao mesmo tempo, também sei que dezenas de homens e máquinas trabalharam durante mais de um ano e que muito do que foi feito foi aterrado, ou seja, quem vê as novas pistas prontas não faz ideia do quanto o terreno foi mexido para se chegar ao resultado final. Sem contar que o projeto foi pensado para, no futuro, poder agregar um viaduto.

Se houve ou não o superfaturamento que muitos denunciam, especialmente de forma superficial, nas redes sociais, só os órgãos competentes podem afirmar. Só sei que, como jornalista, cidadã e usuária, prefiro pensar que mais vale uma rotatória paliativa de R$ 7 milhões concretizada do que um viaduto ideal de R$ 35 milhões no papel.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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