Quanto mais você tiver, mais medo terá de perder

Por: Felipe Sandrin | 19/02/2016 00:00:00

Nesta semana, Ronda Rousey, a maior lutadora que o mundo já viu, admitiu ter pensado em suicídio após perder uma luta em novembro do ano passado. Ora, e o que isso pode ter de relevância para nós? Simples: os fortes também são fracos.
Nós olhamos para Ronda e pensamos “como ela pode pensar um absurdo desses? Ela é bonita, milionária, está no auge da idade e na melhor forma física que uma mulher poderia estar”. E é justamente nessa falsa ideia de possuir tudo que a tristeza se instala... E vence.
Como podemos chamar de “tudo” um corpo perfeito, sendo que a cada ano esse corpo caminha para o envelhecimento? Como podemos classificar a riqueza financeira como um “tudo” se não podemos usufruir disso depois da morte?
Há uma lição clara sendo dada por pessoas bem-sucedidas e tristes, mas estamos sempre mais preocupados em dizer que essa pessoa tem tudo do que propriamente entendendo os sinais que a história dela nos passa.
Se você é um desses que diz “mas ele tinha tudo”, saiba que é um forte candidato a ser sequestrado pela mais profunda tristeza. O conceito de “tudo” é vago, vago ao ponto de “tudo” para alguns ser o “nada” para outros. Sabe o que de pior pode acontecer para alguém que tem uma meta como sendo a essencial para sua felicidade? Realizar. Sim, pois quando realizamos, acreditando que naquilo está a realização, logo sentiremos que aquilo não nos basta.
A ideia do sentir-se completo é uma das mais perigosas às quais nos entregamos. Estamos sempre em busca disso: ser completo. Mas como poderíamos? Se você é sozinho, sua completude leva ao afastamento de outros; se você tem alguém, precisa ser completo no outro. Mas como ser completo diante da insegurança da liberdade que permite o outro ir embora quando quiser?
Há alguns anos, víamos a família como grande perpetuação da vida, éramos uma mera célula diante de um corpo, éramos pequenos em algo maior. Diante da bandeira da liberdade erguida na revolução francesa, adotamos o poder da escolha como sendo fundamental a todos nós. É claro que a liberdade tornaria a família também insuportável, pois, se sou livre para escolher, não preciso suportar o idiota do meu parente só por ser ele meu parente.
Para onde então voltamos nosso foco? A quais objetivos devemos nos fixar nos dias atuais? Você pode treinar exaustivamente, perder sono, feriados, suar dia após dia, dar seu sangue, sua vida e tudo mais que você tem de energia para aquilo. Ótimo, você conseguiu, você venceu, conquistou, você é finalmente o melhor. Mas e aí? O que fazer agora? Já sei, vou me manter o melhor, seguir sendo o melhor por tanto tempo que ninguém se lembre de mim como sendo outra coisa senão o grande campeão. 
Você se transformou naquilo, você é determinado, você acredita que nasceu para vencer e, de tanto acreditar, você se esquece daquela época em que apenas sonhava. Até que, um dia, um soco passa pelo meio de sua defesa, suas pernas fraquejam, tudo escurece e, quando você acorda, você não é mais o campeão. Você não é mais você.
Essa é a vida sendo real. Nada, absolutamente nada, nos pertence, pois a qualquer momento tudo pode nos ser tirado. Reconheça isso e pare de carregar essa pesada bagagem sentimental para todos os lados. Deixe no passado as roupas que não servem mais.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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