Você lembra o nome da sua Margo?

Por: Felipe Sandrin | 23/10/2015 00:00:00

Nesta semana, não abordarei um tema e opinarei sobre ele. Nesta semana, deixarei a imaginação comandar, a minha e a sua. Fique à vontade para interpretar como eu fiquei para escrever. Ou melhor, não fique, vá, ponha-se a relembrar e imaginar como há tempos não faz.

Lá, no alto da colina, vivia a menina Margo. Bom, na verdade não era bem uma colina. Para ser exato, era apenas o outro lado da rua. Também não é verdade que se chamava Margo a menina dos cabelos cacheados: o porquê deste nome explico depois. Importante agora é esclarecer que “Margo” não era menina; tinha a mesma idade que eu, uns 13 ou 14 anos. Enfim, eu a via como mulher, aliás, sintoma claro de quem está apaixonado – fingir-se mais adulto do que é.

Era do outro lado da rua que Margo morava, mas me parecia tão distante que me fazia sentir como em uma ilha. Nesta ilha na qual eu vivia, já havia sido inventado o telescópio e, talvez aí, tenha ocorrido o fatal engano: alguém deve ter me dito para olhar as estrelas, e eu, tolo, encontrei-a ao longe ... Tão longínqua quanto as estrelas que nunca mais vi desde que acidentalmente avistei Margo, do outro lado da rua, em outro planeta.

Agora o porquê de seu nome. Nunca havia sentido a verdadeira aflição. Assim que a vi, me apaixonei e uma voz passou a me acompanhar. “Dê um nome a ela”, disse-me o oráculo que habitava minha imaginação. “Vamos, você a encontrou, tem direito de dar um nome a ela. Pois quem descobre, nomeia”, seguiu a repetir-me, enquanto, em silêncio, eu seguia a despencar no abismo das sensações. À noite, não dormi; fiquei a observar sua janela. Por duas vezes, a luz se acendeu, mas, feito criança que quer fazer um pedido ao cometa, foi-se sem dar tempo de pensar no tal desejo. Como eu disse, não dormi aquela noite toda, e senti pela primeira vez o amargo da paixão... “A-margo”. Sim, daí surgiu seu nome, o qual nunca deixei cair aos lábios, mas que também não saía da minha cabeça.

Cresci ouvindo a palavra “vizinha”, mas ela nunca foi isso, não para mim. Para mim, ela era somente o amargo, a Margo. A garota-estrela, que antes de dormir ficava de costas para a janela e, em frente ao abajur, tirava a roupa para deslizar em seus pijamas, os quais decorei em desenhos e dobras que nunca se repetiam.

Eu amei Margo, eu a vi no alto da colina, da minha ilha, do meu barco e da minha nuvem flutuante que também me escondia. Se Margo alguma vez me percebeu? Não notei. Já disse que para mim ela era estrela: você conseguiria notar alguém a lhe observar de uma estrela?

Estranho pensar que, entre tantas ruas de tantas cidades, ela tenha caído logo aí, ao meu lado. Mais estranho ainda é me perguntar se eu preferiria não tê-la nunca conhecido. Pois, mesmo que Margo não pudesse me ver, eu podia. E quanto perderia se, ao invés dela, visse do outro lado da rua uma janela vazia?

Em breve, cresceríamos e logo eu saberia seu verdadeiro nome. Minha ilha e a sua estrela se aproximariam, o encanto se quebraria. Margo deixaria de existir e deixaria de ser a menina. Sua inalcançável casa da colina seria apenas a casa da vizinha.

Todo garoto tem uma Margo em sua vida e toda garota, mesmo que não saiba, foi desejada, noite após noite, por ele.

Que triste são as estrelas a se tornarem vagalumes, a garota da colina virar mera vizinha e o garoto apaixonado a fechar a janela. Que triste é perceber que o destino de toda Margo é despedir-se um dia. 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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