Meu amigo Sokoban

Por: Greice Scotton Locatelli | 15/12/2017 06:00:03

Microsoft Word. O programa mais comum para edição de textos também é chamado, por mim, de monstro da tela branca. Isso porque naquelas semanas em que a inspiração insiste em ficar bloqueada sabe-se lá por que motivo, ele teima em assombrar a rotina de quem depende dela para trabalhar. E poucas coisas geram tanta agonia na profissão de jornalista quanto ter prazo apertado para entregar um texto e não conseguir sair da primeira frase. Hoje, apesar do apelido nada carinhoso, eu e o Word temos um relacionamento estável – eu não vivo sem ele. 
Meu primeiro contato com um computador foi na 7ª série. Lembro que a novidade virou motivo de burburinho, com crianças se perguntando o que era “informática” e até relutando em aprender a trabalhar com as tais máquinas futuristas. Mal sabíamos nós que aquela “televisão em que podíamos escrever palavras” mudaria para sempre não apenas as nossas vidas, mas a história de toda a humanidade. 
Nossa primeira lição na nova disciplina foi aprender o nome de cada parte (teclado, mouse etc) e apertar o botão de ligar. Em uma tela preta cheia de letras estranhas brancas, éramos orientados a digitar alguns comandos ainda mais esquisitos. No primeiro computador com o qual tive contato, o sistema operacional era o MS-DOS. Meia dúzia de letras e barras, um enter e lá estava ele: o jogo. O nome era “Sokoban” e consistia em apertar as setas do teclado e guiar um boneco para empurrar caixas em lugares pré-determinados em cada fase. Durante um ano, uma vez por semana, nos reuníamos em uma sala abarrotada de computadores enormes e nos revezávamos – era um equipamento para cada três ou quatro alunos – jogando Sokoban. Esse era o conceito de informática na época.
Eu era adolescente e já trabalhava informalmente na transportadora dos meus pais, por isso estava habituada com máquinas de escrever – até curso de datilografia eu havia feito, uma das experiências mais difíceis da minha vida, admito. O lado positivo é que quando os computadores começaram a ser amplamente usados, o agora ato de digitar (não mais datilografar) era muito natural para mim, ao contrário dos meus colegas, que demoraram muito até conseguir escrever um texto em pouco tempo – imagino que uns até hoje não dominem a técnica.
Alguns anos depois eu e minha irmã, Deize, ganhamos nosso primeiro computador em casa. Era um modelo básico, já com o sistema Windows (foi quando entendi o quanto o MS DOS era limitado para os leigos) e conexão discada. A internet era conectada através do telefone fixo, ou seja, o tempo on-line contava como se estivéssemos usando a linha e, enquanto isso, ninguém mais podia usar. Detalhe: não havia celulares, o telefone fixo era a única forma de todos os membros da família se comunicarem. Sempre que a conta de telefone chegava, era uma agonia! Eu estava prestes a começar a faculdade quando tive meu primeiro endereço de e-mail.
A minha geração aprendeu a lidar com informática aos trancos e barrancos. Com o tempo, surgiram as escolas especializadas e todo mundo correu para fazer o famoso curso de Word/Excel/Internet. Eram outros tempos, sem informação ao clique de um botão, e parecia que aprender o básico em termos de computadores seria indispensável para o futuro. E era mesmo.
Imagina-se que as crianças e adolescentes de hoje, que com 2 ou 3 anos já sabem mexer em smartphones (alguns sabem mais do que os próprios pais) não vão sofrer tanto em relação à tecnologia. Ledo engano. Essa nova geração é formada por adolescentes especialistas em internet, jogos e vídeos. Mas pergunte quem sabe o que é um programa tipo Word ou Excel e provavelmente você se surpreenderá com a resposta. Enquanto nos anos 90 nossos pais estavam preocupados em nos preparar para o futuro com máquinas que pouca utilidade tinham se comparadas a hoje, a geração atual se engana com uma falsa sensação de conhecimento que, mais cedo ou mais tarde, vai cobrar o seu preço. Especialmente no mercado de trabalho. Talvez seja hora de repensar o futuro, mesmo já estando nele.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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