Fecham-se as cortinas de 2017

Por: Felipe Sandrin | 22/12/2017 07:00:10

E lá vamos nós: ano novo, velhos planos. Para alguns, renovação total. Para outros, apenas um intervalo rumo ao próximo tempo de jogo. Não se culpe se você não valoriza tanto quanto gostaria esses momentos festivos. Não fique tentando entender por que dentro de você nada parece diferente e as festas do final de ano fazem tanto sentido quanto o aniversário de um ano do filho de seu vizinho.
A gente demora para girar de acordo com as engrenagens do mundo. A rebeldia é um ingrediente-chave que também mantém seus segredos de importância. Percebo que, na medida em que envelhecemos, passamos a girar em outro ritmo, nossas sensações e a forma de demonstrar as emoções mudam. Uma adolescente de 17 anos sente e comemora de forma diferente do que uma pessoa aos 60.
O mundo faz sentido para você? Maldade, bondade? Quais os rumos dos próximos anos? Quando se é jovem, nada deve mesmo ter sentido, pois, se tivesse, qual seria a função dos jovens no mundo? O nascimento é a revolução, é a sensação de fazer a diferença. Por sua vez, a velhice é a nítida impressão e aceitação de que no mundo tudo se transforma em uma mesma coisa.
Os olhos dos velhos marejam, a contagem regressiva que anuncia o novo ano surge como o badalar de um sino em uma vida entregue à sua contagem regressiva. Enquanto isso, os jovens cansam, ficam tentando achar um motivo para acreditar que após meia-noite tudo será diferente. Eles geralmente bebem assim que os fogos começam a estourar (quando não antes), mas não para celebrar: para ajudarem seu eu mais frágil a acreditar em uma alegria que deveriam sentir, mas por algum motivo não sentem.
Celebrar é coisa de gente que entendeu a melancolia da vida. E há grande diferença entre somente sentir a melancolia e entender de onde ela vem. O velho cederá lugar ao novo, mas não se é velho aos 20, 30 anos. A velhice é aquele lugar que você visita em pensamento e sai convicto de que provavelmente lhe reste menos tempo de vida do que o tempo já vivido até aí.
Então, não se culpe então pelas peças que não encaixam, não se culpe pelos fogos também não estourarem dentro de você. A sobremesa da virada de ano lhe traz prazer? Ótimo, já é um grande começo. Tudo que há de errado no mundo lhe tira o tesão? Muito bom, isso demonstra que dentro de você bate um coração cheio de razão.
A gente fica nessa de tentar achar sentido para tudo, como se existissem respostas feitas sob medida para cada um de nós. Alguns se agarram na ideia da mudança, outros temem que as coisas nunca mudem. Mas, no fim, todos voltam para o mesmo pote de dados que segue a ser chacoalhado por mãos irreconhecíveis.
Alguns se emocionam: e certamente há incríveis motivos para isso. Outros nada sentem: e não há nada de errado nisso. Somos as mesmas pessoas em estágios diferentes. Alguns enlouquecendo na busca da razão, outros chorando a falta de alguém que não está ao lado.
Somos um amontoado de planos, loucos para crer que ao final de tudo isso existe um sentido. Somos atores principais em um grande imenso palco, mas por vezes tudo o que queremos ser é simplesmente coadjuvantes cercados por muitos outros.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 681
10/11/2018 08:00:42
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA