Intervalo comercial da tristeza

Por: Felipe Sandrin | 02/12/2016 00:00:00

 

Rodei alguns sites à procura de notícias boas, algo para inspirar esta coluna. Geralmente não faço isso, mas também não fico tão desanimado diante tudo que vem ocorrendo. No meio-tempo entre a coluna de semana passada e esta, um jovem foi morto de forma estarrecedora e uma criança foi molestada por um cara que devia estar preso e algum juiz – tão monstro quanto o bandido – decidiu soltar. Aliás, aconteceram mais coisas, mais assassinatos e tudo aquilo que já está virando rotina.
Enfim. Não quero falar sobre nada disso, preciso tomar fôlego. Sei que meus textos referentes a isso têm repercutido bastante, muitas pessoas me procuram agradecendo o alívio que meus desabafos causam. Infelizmente a indignação da maioria não é lida ou escutada e muitas pessoas sofrem diante deste engasgo que sufoca mentes sãs e entristece corações alegres.
Bem, mas como estava escrevendo, preciso tomar fôlego, talvez não escrever nada objetivo, apenas divagar como se esse espaço não fosse lido, como se ninguém esperasse ou levasse a sério a minha opinião. Por vezes, sinto saudade daquele tempo em que escrever sobre amor parecia mais necessário do que escrever sobre o ódio. Mas mesmo o romantismo tem infantilizado algumas pessoas.
Acho que fui de uma lamentação para a outra, não é? E olha só, lá se foram três parágrafos. Era para ser um texto de intervalo entre tristezas, logo, um texto não voltado às problemáticas sociais. Falhei! Bom, tentarei usar os parágrafos que me restam para falar de coisas boas.
Há alguns dias precisei pegar uma fila de banco. Fiquei mais de uma hora esperando junto de outros tantos mas, para minha surpresa, ouvi poucas reclamações. Fiquei pensando no trabalho árduo que é civilizar, no tanto de séculos que cabem nesse simples esperar sem que pessoas se matem ou queimem gerentes em praças públicas. Ponto para nós.
Vocês lembram da época em que se estava comendo em um restaurante e ao seu lado alguém fumava? E não faz muito tempo: uns 15 anos? Você comendo e alguém baforando fumaça na sua cara. Parece irreal, mas já foi assim. Depois de um tempo, vieram as “áreas de fumantes”. De um lado quem fumava, do outro quem não fumava. Nada nos separava. Parece piada. Aos poucos, as placas invadiram os estabelecimentos e hoje quase não as vemos, todos sabem que não é permitido fumar. Percebam: essa regra demorou em torno de quinze anos para se tornar óbvia, tão lógica que todos sabem sem precisarem ser avisados.
Será que um dia olharemos para trás e pensaremos nas pessoas que perdemos em uma mesma estupidez que permitia fumar onde bem se entendesse? Será que olharemos viadutos e pensaremos em épocas de trevos mal sinalizados onde tantos perderam a vida? Será que caminharemos pelas ruas iluminadas, limpas e seguras de uma cidade e recordaremos que nem sempre foi assim, que houve épocas em que não podíamos sair quando anoitecia? Será que um dia um político ladrão será algo a causar perplexidade?
É um sonho distante, eu sei, mas quantas coisas começaram como um longínquo sonho? 
Deixo então uma questão final sobre o que é mais construtivo: sonharmos positivos ou expormos sem anestesia a realidade do que está ocorrendo a fim de que a dor sangre e possamos identificar as feridas?
Interessante pensar se mais lhes acrescento quando digo que tudo ficará bem ou quando exponho o caos que nos ceifa a esperança do futuro.
Bem, fim do intervalo, hora de voltarmos à realidade. Pelo menos não haverá ninguém fumando ao nosso lado.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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