Vai, malandro

Por: Felipe Sandrin | 02/02/2018 06:00:22

Olha só, acompanhem comigo essa bela letra “made in Brazil”. Mais um produto da cultura do nosso amado funk. 

“Pode vim sem dinheiro 
Mas traz uma piranha, aí! 
Brota e convoca as p*** 
Hoje vai rolar suruba 
Só uma surubinha de leve 
Com essas filha da p*** 
Taca a bebida 
Depois taca a p*** 
E abandona na rua” 

Há algumas semanas essa música vem sendo motivo de debate. Muitas pessoas parecem estar indignadas com a letra e sua apologia ao estupro. Não entendi o motivo desse tardio choque. Em que Brasil essas pessoas abismadas vivem? Isso acontece TODOS os anos. Letra para favelados? Negativo, a galerinha em Jurerê Internacional, por exemplo, praia mais cara do Brasil, canta alto e rebola quando toca esse tipo de som. 
Apologia ao estupro? Que chá de consciência as pessoas tomaram para se ligar nisso somente agora? Eu escuto frases desse tipo desde os meus, sei lá, 15 anos! 
Quando o absurdo todo começou as pessoas diziam que era liberdade de expressão, que era só desligar o rádio: pois aí está a geração que não desligou o rádio. Basta sairmos na noite que vemos o jeito que os caras tratam as meninas, pegam pelo braço, puxam, quase repetem a música, afinal, elas cantam alto, eles também, tudo parece em harmonia... até rolar o assédio, o estupro. 
Esse culto ao corpo, a olhar uma mulher e vê-la resumida em bunda e peito parte também da nossa cultura... machista? Não, mais que isso, PERVERTIDA. É normal levar criança para museu tocar em homem nu. É normal tornar figuras religiosas, animais e corpos instrumentos sexuais. 
O brasileiro tem o governante que merece e a cultura que merece. Nossos artistas no geral são uns verdadeiros babacas, o que você vê esses “heróis” fazendo de bom? E o que dizer/ esperar de quem assiste a algo como o tal “Big Brother”? A música que recebemos é aquela que nos cabe. As novas gerações não estão prontas para letras complexas, elas querem dançar se esfregando. É bonito, até a classe alta faz, até as “minas gostosas” curtem e rebolam. 
E tem gente que ainda cai nesse papinho de “arte livre”. Um dia desses estava rolando uma festinha aqui perto de casa, um antro de doenças, gente quase transando em público, drogas sendo consumidas. Um pouco mais para cima, em outra rua, vi uma igreja, alguns jovens tocavam violão, essa era a comunidade deles. Pensei na hora: eu não sou um homem temente a Deus, mas que saudade eu sinto de ver as pessoas voltando a acreditar em algo que não envolva sexo, putaria e esse falso desapego. 
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 682
19/10/2018 08:00:32
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA