Não mate o mensageiro

Por: Greice Scotton Locatelli | 23/02/2018 06:00:16

Por pior que seja a mensagem, matar o mensageiro nunca é a solução. O ditado é antigo, mas continua bem válido. E, se adaptado ao nosso dia a dia, pode trazer valiosas lições.
Tomemos como base as críticas aos órgãos de segurança. Nas rodovias, fiscalização com radar móvel é sinônimo de protestos, alguns bem exaltados. “Indústria da multa” é o termo usado por muitos. Vale a reflexão: só será uma indústria da multa se houver motoristas descumprindo as leis, certo? “Ah, mas 60km/h é uma velocidade ridícula”. Acredite, sei por experiência própria o quanto é tentador fincar o pé no acelerador para chegar mais rápido. Mas também sei quantas mortes eu noticiei – e, infelizmente, presenciei – justamente em função da pressa. Ora, não se chegou a esse limite à toa. Há estudos técnicos que demonstram por que é mais seguro trafegar dessa maneira e a infraestrutura da via é o que mais conta. O SERRANOSSA já abordou em diversas reportagens por que não é possível aumentar a velocidade máxima de alguns pontos da BR-470, por exemplo. Caso você não saiba, trata-se de uma rodovia de pista majoritariamente simples, com uma quantidade enorme de trevos e entradas secundárias e trechos de curvas onde a visibilidade é comprometida. Portanto, não adianta criticar a Polícia Rodoviária Estadual ou a Federal. Ambas só estão fazendo seu trabalho cumprindo a lei.

Outro enfoque, ainda na mesma área. A piada que viraram as leis penais. A Brigada Militar e a Polícia Civil se empenham, encontram bandidos, prendem, passam horas fazendo o procedimento de prisão em flagrante. E, pouco tempo depois – às vezes questão de horas – o detido já está solto. E, infelizmente, como nosso sistema prisional não tem vocação para reabilitação, a reincidência é algo natural. O caso recente do ataque a um carro-forte na BR-470 ilustra bem essa situação. Um dos bandidos havia sido preso em um assalto anterior, em Garibaldi, no qual duas pessoas inocentes morreram. Ele cumpriu parte da pena, teve progressão de regime para o semiaberto e, pouco mais de um mês depois, lá estava ele envolvido em outro roubo. Felizmente, dessa vez sem mortos. Outro integrante do mesmo bando era foragido do presídio de Charqueadas – havia sido liberado para procurar emprego. Dois exemplos claros de que prisão não reabilita ninguém, pelo contrário. Então a culpa é dos juízes que soltam? Mais uma vez: eles só cumprem a lei.

Então por que não se muda a lei? Se fosse tão simples, certamente já teria sido feito. Há um complexo sistema que precisa ser levado em conta. Não adianta tornar as leis mais rígidas e não ter onde prender as pessoas que não a cumprirem. Não adianta ter mais presídios, com mais vagas, se não houver um trabalho de reabilitação que permita que quem cometeu um erro retome sua vida ao sair – preferencialmente longe da criminalidade. De nada adianta simplesmente punir, sem tentar conscientizar – e conscientização passa por melhor qualidade de vida, que se só depender do governo vira assistencialismo. Não adianta prender mais gente se a Justiça não for mais rápida. Da mesma forma que não adianta tentar agilizar os processos enquanto houver brechas que permitam protelar recursos meramente para ganhar tempo.
 
Também não adianta se iludir achando que essa é uma discussão rápida: nesse caso é necessário contar com políticos que assumam um projeto dessa magnitude e com sucessores que deem continuidade a ele sem tirar vantagem pessoal ou sucumbir a interesses.
E o que eu e você podemos fazer diante desse complexo dilema: ter consciência na hora de escolher quem vai governar nossa cidade, nosso Estado e nosso país. E cobrar uma postura proativa e que privilegie o coletivo, não o individual. Talvez você me pergunte se eu tenho esperança de que isso vá acontecer um dia. Como dizem, a esperança é a última que morre – mesmo que as chances sejam infinitamente pequenas.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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