Sobre jardins e cemitérios 

Por: Felipe Sandrin | 03/01/2018 17:18:54

Qualquer pessoa com renda média de um salário mínimo hoje vive melhor do que um rico rei nascido há 300 anos. Mas é claro que esse argumento não nos é suficiente. Definimos nossas buscas através dos padrões que nos cercam, a casa e o carro do vizinho, o salário do amigo, o local onde um parente passou as férias. Exigimos tanto quanto os próximos a nós desfrutam, somos o constante comparativo.

Como então entender realidades tão diferentes? Como interagir com um mundo que parece tão próximo através das telas do celular, mas tão distante quando se trata de sentir? Vivemos essa constante ilusão, o que nos é claro deveria ser também ao outro, o herói e o vilão, certo e errado, o que salvará o futuro e o que nos afundará ainda mais. Padrões rígidos de exigência a pessoas que já têm muito e padrões tão simples a quem não possui quase nada.

Um amigo que mora há três anos em um rico vilarejo na Itália relatou como lá as pessoas perdem a cabeça por pouco, um canteiro de flores mal plantado, uma árvore não podada, a falta de uma placa que indique a entrada da igreja. Terça-feira passada – ele me disse – houve uma convocação geral na vila, cujo tema da discussão era o acúmulo de neve em um dos monumentos da cidade.

Ah, como nós, brasileiros, gostaríamos de reclamar disso: o acúmulo de folhas, flores mal plantadas, cães urinando fora de seus locais específicos em parques. Quem dera em todas as esquinas pudéssemos notar a tinta desbotada de um prédio histórico ou o desrespeito de um semáforo colocado um metro abaixo do limite exigido por lei. Não, nossas preocupações são outras, nossos padrões dizem respeito a basicamente não levarmos um tiro na cara enquanto atravessamos a escura esquina de um assombrado país.

Nossas exigências sempre foram comparativas, queríamos tanto quanto o vizinho tinha. Então surgiu a internet e nossos vizinhos passaram a ser países de primeiro mundo, cidades bem administradas, políticas públicas eficazes. ‘Ei, eu tenho direito a isso’. Esquecemos então que direito é coisa que se conquista. Quando foi que o brasileiro fez por merecer ‘seus direitos’? Quando é que nos provamos tão dignos a ponto de merecer assim também dignos representantes?

Dói né?! Ver políticos como um cru reflexo do que realmente somos e merecemos. Temos tanto a avançar como país, mas a verdade é que não fazemos ideia de por onde começar e quem seguir. Desconfiamos de nós próprios, pois no fundo sabemos que a máquina a qual criamos é impiedosa com aqueles que não entram no jogo.

A comida na mesa e o banho quente já não nos bastam. Queremos financiar um carro, um apartamento. Queremos viajar final do ano, jantar fora no final de semana. Queremos porque nos é de direito, porque damos duro em empregos repetitivos que passam longe de ser o nosso sonho de infância. Queremos porque o sacrifício de trocar nosso tempo por dinheiro é sagrado.

Bem provavelmente sejamos a geração mais exigente que já existiu em toda história humana. ‘Nossos direitos’. Que podemos mais? Não há dúvida, mas qual será o limite de tanto querer, tanto comparar. Em que momento poderemos sossegar e dizer: ‘Pronto, finalmente chegamos aonde deveríamos chegar’.

Sabe meu sonho? Escrever textos criticando flores mal plantadas. Quem sabe um dia... quem sabe.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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