Selfies em acidentes – É preciso acabar com isso

Por: Greice Scotton Locatelli | 03/09/2018 06:00:21

Um vídeo que viralizou na Alemanha alerta para uma prática que se tornou infelizmente comum também por aqui: pessoas que fotografam ou filmam vítimas de acidentes de trânsito e até mesmo fazem “selfies” com os destroços. É bizarro, mas tem acontecido cada vez mais – há algumas semanas aqui no Rio Grande do Sul mesmo, na BR-285, entre os municípios de Colorado e Saldanha Marinho, motoristas que pararam para fotografar um acidente acabaram sendo atingidos por um caminhão que não conseguiu frear a tempo e por pouco não caiu de uma ponte. Por sorte, ninguém ficou ferido. 

Na Alemanha, registrar imagens de pessoas em situação de vulnerabilidade é ilegal, considerado um ato criminoso. Mesmo assim, a facilidade ocasionada pela popularização dos celulares com câmera tem dificultado o controle. Para minimizar os efeitos desse comportamento, estão sendo usadas diversas artimanhas, como painéis infláveis para “cercar” a cena, indicando a proibição de fotografar ou filmar. O vídeo mostra, inclusive, Bombeiros jogando água nos vidros dos carros cujos ocupantes estejam tentando registrar a cena com o celular. Tudo para resguardar a privacidade da vítima e fazer o trânsito fluir. 

No vídeo aparecem alguns jovens fazendo selfies em uma colisão grave. Eles aproveitam que os socorristas estão ocupados, abrem compartimentos do caminhão dos bombeiros, tiram fotos com os equipamentos, tentam se aproximar e filmam o resgate. No final, um deles descobre que conhecia a vítima. Não vou entrar em detalhes específicos, sugiro que você assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões – www.fb.com/NaoFoiAcidente/videos/1973494252666820/. 

Você acha exagero fazer uma campanha contra esse comportamento? Eu não! Enquanto jornalista, cobri um número enorme de acidentes, muitos deles, infelizmente, fatais. E não foram poucos os casos de curiosos que, sem o menor pudor, invadiram áreas destinadas às equipes de resgate com o mero objetivo de fotografar as vítimas para compartilhar via WhatsApp. Pouco importava se estariam atrapalhando o socorro, se corriam algum risco ou se havia alguém agonizando. Registrar era mais importante. 

Um dos casos que mais me marcou foi um acidente com duas mortes em que o isolamento ia da parte central da pista até o limite do acostamento. A pessoa tentou furar o bloqueio feito pela Polícia Rodoviária Estadual e, sendo impedida, desceu por uma área de mata íngreme até conseguir chegar nas ferragens onde ainda estava o corpo do motorista. Sem o menor pudor, o homem levantou a lona que cobria o cadáver e tirou uma foto do rosto dele ensanguentado e enviou para amigos. O cúmulo da curiosidade e da falta de respeito, que causou revolta entre as pessoas que se aglomeravam ao redor. Infelizmente, até onde eu sei, o máximo de punição que ele recebeu foi uma represália verbal dos socorristas.

Muitas vezes não é apenas tirar fotos ou gravar vídeos que atrapalha. Quem reduz excessivamente a velocidade também aumenta o risco de outros acidentes, tanto quanto quem larga o carro em qualquer lugar para ir a pé conferir de perto o estrago.

A maioria de nós tem curiosidade acerca da morte. É natural. Mas a curiosidade não pode, nunca, ser maior do que o respeito. Quando ocorre um acidente, além das vítimas há familiares e amigos sofrendo. Já imaginou um conhecido seu morrer um acidente e você receber as fotos do corpo dele no seu celular? Pense nisso. Hoje pode ser um desconhecido, amanhã alguém da sua família ou até mesmo você.

A única forma de mudarmos esse comportamento é cada um se colocando no lugar do outro. E violar a privacidade e a dignidade de uma vítima de acidente em troca de alguns segundos de fama na internet é um preço muito alto a se pagar.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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