Casar e ter filhos? Não, obrigado

Por: Felipe Sandrin | 03/04/2016 00:00:00

Ontem passei por um amigo rapidamente. Eu estava de carro e ele andava pela calçada levando seu filho em uma dessas “sacolinhas” que você enrola no corpo e meio que te torna um paizão atraente. Cena maravilhosa: sim, ver aquele amigo com seu filho junto ao corpo me tocou. Algumas centenas de metros depois, meus pensamentos se projetaram como se fossem independentes de mim. “Será que um dia terei isso? Um filho nos braços e milhares de compromissos que não são comigo mesmo?” Mas, espere aí! Por que aquilo que admiro e acho bonito deve me caber? Por que eu também devo ser pai, marido, um trabalhador que acorda logo cedo?
Nunca pensei em casar ou ter filhos. É sério: eu nunca consegui parar para pensar seriamente nisso. Por quê? Bem, devem existir milhares de respostas, todas voltadas para traumas e toda essa coisa que ronda o inconsciente humano, sua fisiologia e suas limitações. Mas a minha resposta sobre isso é simples: minha vida é divertida pra caramba.
Conheci diversos lugares com apenas alguns trocados no bolso, namorei uma atriz, algumas modelos e uma cantora. Em cada cidade pela qual passei, alguma garota incrível me deu um teto e o prazer de sua companhia. Fiz amigos de todos os tipos, viajei e conheci jogadores do time que sempre amei desde pequeno, visitei amigos nos quatro cantos do país. Aprendi a viver com pouco e percebi que quanto eu menos tenho, mais simples se torna partir para um novo lugar. Se recomendo minha vida e aventuras para alguém? Não. Recomendações são perigosas. O que me preenche pode ser o vazio de outros e a vida perfeita de outros para mim quase sempre beira a monotonia.
Orgulho-me dessa liberdade, de poder escrever e virar noites mentalizando a capa de meu novo álbum musical, planejando um novo livro. Por vezes me vejo passando algumas temporadas no sul da França, colhendo uvas, ou arrumando prateleiras de um armazém em algum pequeno povoado na Itália.
Talvez nada disso aconteça – ou talvez tudo aconteça –, mas o mais importante é essa leveza com que venho aprendendo a escolher o que colocarei na mala. Como escrevi, não me vejo casado e com filhos. Não vejo obrigação alguma com ninguém senão comigo mesmo. E de onde vem essa coragem? Da observação. Vejo tanta gente fingindo nos relacionamentos que me traz imenso alívio me ver somente como um escravo que fugiu e traz notícias da liberdade.
Por vezes, paro e fico observando minha vida, cada lugar que passei, as pessoas que conheci, coisas que fiz e que, por vezes, parecem ter sido parte de um sonho. Nada senti me faltar nesses 29 anos. Todas as escolhas foram minhas e para todas elas tive o único apoio que julgo importante: o de meu pai e minha mãe.
Tenho três grandes amigos com quem posso contar para tudo. Tenho outra centena de conhecidos espalhados pelo mundo e que sempre me oferecem um lugar pra ficar. Tenho duas pernas que ainda podem cruzar cidades, braços que conseguem me erguer. Tenho a coragem como grande companheira de cada viagem e o romantismo baseado na saudade.
Não descarto nada na minha vida, mas me coloco cada vez menos pressões. Quando vejo um amigo com seu filho nos braços eu admiro, acho lindo, me sinto feliz por ele ao mesmo tempo em que me sinto feliz por não ser ele. Que bom ser eu.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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