Qual a pior tragédia do ano: Dilma, Cunha ou a lama de Mariana?

Por: Felipe Sandrin | 12/03/2015 00:00:00

Dilma ou Cunha, o mar de lama em Mariana ou os atentados de Paris? Imposições magníficas de um mundo aparentemente prático que, de tão ocupado, tem tempo de ver a novela, Masterchef ou qualquer outra porcaria que dure menos de uma hora. 
Que tal uma profissão nova para as próximas décadas? Sommelier de tragédias. Sinta a textura da ignorância e o aroma de superficialidade, delicie-se com as babaquices de novas gerações ou se aprofunde nas tradições abestadas de quem acredita ter feito o suficiente para um mundo melhor.
Não caio mais nessa de “ano novo vida nova”, nem caio nas desses Cunhas, Lulas e Dilmas. Desejos? Tenho um bem concreto: quero chegar aos quarenta anos de idade entendendo que este é o mundo no qual vivo e ponto. Quero deixar de tentar mudar tudo e me sentir confortavelmente abraçado pela luz de uma luminária em uma noite que eu não espere que passe depressa.
Como você vê, não desejo muito mais do que me acostumar com o mundo. Não quero que a dor passe, apenas quero me acostumar com ela para que, se me couber tempo de ver futuras gerações, eu não as condene por toda burrada que elas também farão. Vejam bem: eu não desisti das pessoas, pelo contrário; quero apenas me acostumar com a forma idiota com que cada uma ricocheteia em um mundo senil.
Não me levem a mal, mas tudo por aqui parece desperdício. Você cria o micro-ondas para o ser humano ganhar alguns segundos, mas o que o ser humano faz com esses segundos? Discute qual tragédia é pior. Tipo o Cunha aceitando impeachment da Dilma. Parece piada, né? O que teremos para o ano que vem nesse país? O casal Nardoni apresentando o Criança Esperança? Entenderam o humor negro? Bom, se você entendeu, significa que a sua memória está funcionando bem, então, pelo menos, tente não eleger o Collor para presidente novamente nos próximos anos.
É a isso que me refiro: o mundo é mundo, o povo é povo e o Brasil tem brasileiros. “Tenha fé”, alguns dizem – geralmente, aqueles que se consultam com psicólogos e psiquiatras esperando o dia no qual sobre o criado-mudo repouse o tarja preta.
Eu aceito toda a realidade cotidiana, divido, mastigo e engulo sem métodos paliativos que aliviem a ranhura de tanto desgosto. Sabem por quê? Porque quero estar sóbrio para quando a aceitação total chegar. Sim, como já escrevi aqui, esse é meu principal desejo: saber que as coisas são assim desde sempre e que a nós cabe apenas remar e seguir. O que não quero é ser um velho “reclamão”. Quero sobriedade para, na desgraça, me caber em silêncios cheios de ironias enquanto o pessoal se esfaqueia com verdades mentirosas. Eu só quero saber que nada sei e me dar por satisfeito.
Desejo rir das Dilmas em rede nacional perante a ignorância de alguém que representa milhões de brasileiros igualmente ignorantes. Desejo gargalhar das cifras milionárias desviadas para as contas secretas dos Cunhas. Desejo que não me caiba desprezo pelo bêbado Lula e eu o ache tão engraçado quanto o pinguço a ziguezaguear no bar próximo à minha casa. Desejo apenas não me sentir responsável pelo caráter falho de outros, mas, mais do que isso, que esse caráter falho não me cause ataques de raiva. Eu desejo me tornar um ser conformado com o que o ser humano é. Pois de Dilma, Cunha e Lula todos temos um pouco. 
Todo ser humano é sua própria tragédia, por isso nós parecemos conhecer tanto sobre cada uma delas.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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