Haja paciência

Por: Greice Scotton Locatelli | 04/06/2018 06:00:00

Haja paciência para a burocracia que envolve tudo que existe nesse país. Se você já precisou alterar seus documentos sabe do que estou falando. A minha saga durou quatro dias inteiros e alguns palavrões (restritos a pensamento, porque me considero uma pessoa educada e acho que os atendentes não têm culpa se o sistema é falho). 

A parte dos documentos oficiais foi até mais fácil do que eu esperava. Comecei com a Carteira de Identidade. O processo foi tranquilo, sem muita fila, apesar do número restrito de senhas (13 por turno). O prazo para o documento ser entregue soou como piada: 40 dias. Mas se você pagar uma taxa extra de R$ 20 (totalizando R$ 85), chega em cinco dias úteis. Ainda bem que tem essa opção. RG resolvido.

CPF também foi supertranquilo. Bastou ir a uma agência dos Correios e pagar uma taxa de R$ 7. Barato, sem grandes filas, sem grande burocracia. O problema – que até então eu não achava ser um problema, já que o número consta em vários outros documentos, como o RG – é que há anos não é entregue mais nenhum comprovante impresso e algumas empresas (ainda) exigem esse comprovante. Como se resolve isso? Indo na receita federal solicitar uma via. Sim, acredite. Mesmo constando no RG e na Carteira de Habilitação ou podendo ser impresso on-line ainda são necessários processos desse tipo para simplesmente atualizar um cadastro. Isso em pleno 2018, com as facilidades que a tecnologia permite e com toda preocupação ambiental em torno do desperdício de papel. E o pior, sequer era para um documento oficial! 

Não pense que nos bancos foi diferente. Com exceção do Bradesco, que costuma facilitar muito a minha vida, por e-mail e telefone, nos outros foi necessário ir pessoalmente. Em dois deles esperei mais de uma hora em filas intermináveis porque todas as demandas são misturadas: tem gente que quer pedir empréstimo, que precisa atualizar cadastro, que quer renegociar dívidas ou pedir cartão de crédito. E aí quem necessita de uma mera atualização que leva 5 minutos para ser feita “paga o pato”.

Atualizar o Título de Eleitor era a parte que menos me gerava angústia. Eu já havia feito o cadastramento biométrico há um bom tempo, em um processo rápido e bem organizado, então imaginei que seria tranquilo. Entretanto, na hora de atualizar o cadastro, a atendente disse que o sistema apontou que a foto (tirada no cartório mesmo, na época da biometria), estava em baixa resolução. Resumindo: foi necessário refazer todo o processo e caí na fila de quem deixou o cadastramento biométrico para última hora – aliás, incrível como o brasileiro tem o dom de procrastinar. Pode chamar, anunciar, convocar. A maioria deixa tudo para os últimos dias. E depois reclama. Atualizar o título consumiu quase duas horas.

Conta de energia elétrica e de telefone exigiram mais uma boa dose de paciência. Tudo tem que ser feito pessoalmente, em lojas em que o atendimento é demorado e via 0800 pouco ou nada conseguem informar sobre os documentos necessários para se fazer uma alteração.

Que lição eu tirei de tudo isso? Que ainda há muito que se evoluir em termos de burocracia nesse país. E isso não passa necessariamente por investimentos em tecnologia, mas por processos internos de organização. A internet facilitou muito e a interligação de sistemas de diferentes esferas é uma mão na roda em termos de documentos oficiais. Muita coisa melhorou, mas ainda há um abismo entre o que seria prático e ideal para que as pessoas pudessem resolver tudo em bem menos tempo e sem necessidade de ir a tantos lugares diferentes. Não é possível que uma simples alteração exija tantas idas e vindas, filas e desencontro de informações, especialmente no que diz respeito a empresas que prestam serviços à população. 
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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