Lei que proíbe consumo de álcool evidencia o fracasso na aplicação das leis

Por: Felipe Sandrin | 19/04/2018 17:05:59

Recebi muitos questionamentos nesta semana sobre a lei que proíbe o consumo de bebida alcoólica em locais públicos de Bento Gonçalves após as 22 horas. Senti, diante da minha resposta, que talvez a maioria das pessoas esperasse um posicionamento diferente de mim, já que alguém me escreveu: “isso é tirar a liberdade das pessoas”. 

Pois bem. Quando eu passo em um final de domingo na avenida Planalto e vejo aquele monte de lixo espalhado, isso me tira a liberdade. Quando próximo dessa mesma avenida dezenas de carros se aglomeram com um som absurdamente alto, isso me tira a liberdade. Quando elementos mal encarados espreitam nas esquinas com suas garrafas de cerveja e postura ameaçadora, isso me tira a liberdade. 

O álcool não é o pai de todos os problemas, a impunidade sim. Agora, junte a impunidade, as drogas e uma geração estúpida: pronto, temos a mistura perfeita para transformar uma cidade em um labirinto de degradação e insegurança. 

Quem conheceu a Bento Gonçalves de 20 anos atrás sabe ao que estou me referindo. Nas últimas décadas, caminhamos ao total caos. A cidade, apesar de todo seu poder financeiro, vaga em uma marginalidade absurda. Os pequenos descasos criaram uma total libertinagem, o consumo de drogas é um dos maiores do país e não há como se negar a nefasta influência do álcool sobre essa geração deprimente e degradada. 

Se ainda fôssemos uma comunidade, existiria um mínimo espírito que colaboraria para o bom convívio e não necessitaria chegarmos a leis desse tipo. Proibir o consumo de álcool em vias públicas é um atestado de infantilidade coletiva. O aborrecimento de quem acha a lei absurda talvez não seja por não mais poder consumir suas bebidas – pois a maioria assim seguirá a fazer, mas, sim, a dor maior talvez seja como a de um filho que vê o pai chamar-lhe a atenção na frente das visitas. Proibir o consumo de álcool em locais públicos é nada menos do que atestar a incapacidade de um grande grupo para com o bom senso que permite um convívio em sociedade. 

Criou-se, sim, em nossa cidade uma comunidade imatura, barulhenta, porca e sem amor por esses espaços públicos. Virou rotina em nossa cidade: o que é para todos em Bento Gonçalves acaba não sendo para ninguém. 

Há leis mais importantes por serem criadas? Com certeza. Há pontos que mereceriam muito mais ênfase? Certamente. Mas também há a necessidade de nos expormos ao ridículo que chegamos em se tratando de lei e ordem. A cidade está um caos, a violência nos arredores da Cidade Alta após as 20h é absurda. A quantidade de lixo que jovens deixam pelas ruas expõe o tipo de pessoas que estão sendo criadas.

É ridículo termos uma lei que proíba o consumo de álcool, mas é ainda mais ridículo o ponto em que chegamos. Ou se resgata um mínimo espírito de comunidade que faça com que as pessoas queiram preservar a cidade, ou nossas ruas se tornarão cada vez mais escuras e propensas para as criaturas que habitam essa escuridão. 

Quando leis boçais e desesperadas começam a surgir, torna-se claro o próprio fracasso das leis. A liberdade tornou-se falta de respeito e o descaso de anos agora cobra seu preço.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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