Próxima parada: 2016

Por: Felipe Sandrin | 18/12/2015 00:00:00

 

Lá vou eu para o último texto do ano. Por coincidência ou destino, escrevo-o pelo celular, de dentro de um ônibus. Antes mesmo de vocês lerem estas palavras, terei percorrido 600km para minhas últimas palestras do ano.
Gosto de viajar de ônibus, sempre gostei. Gosto também de estações rodoviárias e de toda essa gente diferente que se desvia com pressa. Neste momento, uma criança chora alguns bancos atrás de mim, uma garota fala ao telefone e um senhor ronca. Tudo passa, e logo não mais verei nem terei de aguentar nenhum deles. Cada um seguirá sua história e, muito provavelmente, eles nunca saberão as minhas. Então o que é um ônibus se não um ano a nos levar junto dele?
Jamais torci para um ano acabar, nem foquei em pedir que o próximo fosse melhor. Nunca fui bom nesse lance de transferir responsabilidades, acho isso improdutivo e uma porta aberta para a depressão. 
Torcer para o próximo ano ser melhor não será suficiente, afinal, como sempre, o problema não está no ônibus, mas, sim, na forma como você interage com a viagem. Há coisas que não dependem da gente. Se é assim, por que seguimos a deixar que nos torturem? 
Sabe o que eu mais gosto nas rodoviárias? Elas não levam a lugar algum. Nelas, você vê um monte de gente indo, mas, se você ficar parado, aí permanecerá. E quando, então, paramos para observar toda aquela gente correndo, começamos a entender que aquele a correr também somos nós. 
Aos que não tiveram um bom ano, pergunto se talvez não seja a hora de desembarcar e passar um tempo a observar. Se o ano novo representa mudança para você, mas ano após ano as mudanças não parecem surgir, quem sabe não seja esse o momento de deixar a viagem de lado e passar um tempo curtindo a si?
Muitos reclamam da rotina, mas o que fazem de diferente para que os resultados não sejam os mesmos? 
Jogamos com a vida como se nada dependesse de nós. Sim, há doenças não previstas, contas que não esperávamos, gente que nos decepciona, independentemente do bem que façamos. Por fim, sempre haverá o que não nos cabe mudar, mas também sempre haverá mil formas de ver uma mesma situação. 
Cansados ou não, o novo ano não nos perguntará “o que posso fazer para lhe agradar?” Não é a função da vida agradar, a função dela é somente nos levar. As escolhas são nossas, sempre foram. O ônibus no qual entramos, o lugar para onde vamos e quanto tempo vamos ficar. No fim, a decisão é nossa.
Aos que comigo embarcaram em 2015, deixo um abraço e meu obrigado. Já para 2016, nada sei a não ser que o motorista se chama imprevisibilidade. Sinto-me seguro, pois o imprevisível sempre traz as melhores viagens. 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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