Tinha tudo, tinha nada

Por: Felipe Sandrin | 27/04/2018 06:00:00

Você tem 28 anos, está no auge de sua carreira, conhece o mundo todo e o saldo da sua conta possui oito dígitos. Teoricamente a vida perfeita, fama e fortuna. Compromissos? Só aqueles que você desejar, seu dinheiro e saúde lhe garantem uma vida de aventura ou sossego, as escolhas são suas.

Suspiram alguns: ‘Há se minha vida fosse assim’. Mas para aqueles poucos que se encontram nesse invejável estado as coisas parecem bem mais complicadas. Afinal, que sentido há em uma vida em que a escalada parece ter findado? Como deve ser olhar o mundo lá de cima, do topo? Quando quem tanto deseja finalmente realizar como será o barulho do silêncio? E quando se deparar com o mesmo sentimento de outros tempos, dos tempos nos quais o sentido de tudo estava naquela busca que agora escorre pelas mãos.

Tim Bergling, mais conhecido como Avicii, músico, produtor, renomado DJ, 28 anos e uma conta bancária que crescia mais rápido do que ele conseguia gastar. Problemas com bebida, solidão e morte. Filme repetido, sucesso e vazio caminhando juntos.

Você sabia que o índice de suicídio em países desenvolvidos é muito maior do que em países de terceiro mundo? Você sabia que um japonês de 1950 – apesar de todas as dificuldades, tinha cem vezes menos chances de tirar a própria vida? Não é coincidência. Uma vida dura é de fato muito mais convidativa do que uma vida na qual basicamente você possa ter tudo ao alcance das mãos.

Se há algo que não desejo para aqueles que veem no consumo a felicidade é que estes tenham sucesso e saldo para realizarem tais desejos, pois assim que se depararem cercado por bens eles também vão perceber que a inquietação não pode ser vencida nem silenciada com o que compramos.

Este não é um discurso antimaterialista, este é apenas um texto lhe garantindo que: se você espera que diante o sucesso financeiro o grito a ecoar no seu interior se cale, saiba que ele nunca se cala. Fixe então seu objetivo em algo que não pode ser realizado, pois o que se realiza como busca por respostas só traz ainda mais perguntas e uma completa insatisfação.

A correria do dia a dia, aquela que não nos permite olhar para os lados, é o que nos permite ao fim navegar ao ritmo do mar de gente. Sonhos simples, mas compartilhados, sonhos sem fim.

Do carrinho de brinquedo ao carrão de verdade. Dos vestidos de boneca para as lojas que vendem às últimas tendências da moda. Nós crescemos, mas as buscas permanecem. Pois é isso que melhor fazemos, ser insatisfeitos. Olhar para as estrelas e querê-las silenciosamente, até que um dia algum de nós vá ao encontro delas. Entender como a aranha tece sua teia e de quem foram as mãos que escreveram a Bíblia. Nossa curiosidade, nosso querer incessante. Nossa maldição, mas ao mesmo tempo nossa condição indubitável. Queremos porque precisamos querer, não para realizar, mas apenas para na sequência querer ainda mais.

Porque somos mais crença do que propriamente realização. Somos mais criação do que o próprio resultado. Nosso orgulho está mais no acordar cedo do que no acordar a hora que bem entendermos.

Dê tudo a um homem e ele logo se sentirá como se fosse nada. Agora, dê-lhe um objetivo, algo que toque seu coração, e não importa o quanto for inalcançável, ele atravessará mil desertos apenas bebendo de sua esperança.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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