Uma gota de fake news hoje é melhor do que o oceano de mentiras do passado

Por: Felipe Sandrin | 05/11/2018 06:00:23

Quem ouve a imprensa noticiar as tais “fake news” acha que o mundo vai acabar, como se notícias falsas fossem um privilégio dos tempos atuais. Não se engane, o desespero não é um surto de consciência das grandes mídias, mas, sim, um grito desesperado de quem por muitas décadas deteve o monopólio da mentira e desinformação.

Pense em você 15 anos atrás, um típico jantar de sua família com a TV ligada. O noticiário transmite as informações, os apresentadores falam de política e de violência, declaram culpados e vítimas. Enquanto isso, você e sua família apenas escutam, qualquer desconfiança não será mais do que uma voz abafada na mesa, uma voz para a qual ninguém liga.

A onda manipuladora fez de nós o que somos hoje, os mesmos que se desesperam com mentiras que brotam na internet foram os que mais lucraram com a mentira ao longo dos anos. Hoje, garotos são mais vistos do que os âncoras de telejornais, pessoas com acesso ao Facebook são muito mais conhecidas do que o repórter e seu microfone. Ruim? Para quem? 

Observem os grandes impérios de mídia no Brasil: vocês acreditam que todo esse poder veio de um compromisso com a verdade? Se assim fosse, o Brasil não teria se tornado o que se tornou. Informação sempre foi poder, por isso ela era privilégio de poucos. As “fake news” sempre foram bem-vindas, a garota de olhos verdes dos barões da comunicação. Mas aí veio a internet, a popularização do ser comum e pronto, essas mesmas mídias que enganaram você por uma vida inteira agora alertam: “cuidado com notícias falsas”.

Óbvio que há notícias falsas, sempre haverá. Elas aumentaram? Sim, a quantidade de mentiras cresceu, mas diferente do que se pensa, a quantidade de enganados diminuiu – e muito. O cálculo é simples: a mentira que emergia de uma poderosa mídia há alguns anos quase não possuía fontes contrárias, logo surgia uma verdade absoluta. Hoje há constante contestação, há, ao alcance das mãos, a pesquisa que pode elucidar qualquer desconfiança. Não, mentir não se popularizou, apenas quebrou-se o monopólio da informação.

Ao contrário das mentiras de antigamente, as de agora surgem muitas vezes na simples inocência. Pessoas compartilhando o que não sabem, acreditando em algo levadas por um simples desespero. Chame de burrice se assim preferir, mas o fato é que as mentiras de hoje nem sempre surgem em uma sala fechada na qual produtores, redatores, políticos e empresários arquitetam as notas que serão pautadas nas matérias do telejornalismo ao longo do dia.

Percebam: as grandes mídias estão desesperadas. A perda do monopólio da informação é a cruz de pau sobre o buraco no qual repousará o cadáver dos até então detentores da verdade.

A grande “fake news” foi nos venderem esse Brasil, do futuro, da inclusão e da transparência. 
Foi assim que essas mídias elegeram e derrubaram presidentes, venderam e moldaram ideologias, programaram e refizeram uma agenda que nos conduziu até o cenário atual.

Nadamos no lixo de outros tempos, sufocados pela quantidade de porcaria que nos empurraram goela abaixo. Na terra da mentira, os poderosos temem as notícias falsas, claro, pois pela primeira vez a verdade não pertence a eles. Não, eles não temem por nós, aliás, como sempre, eles só temem por eles. É a força do vício que os fazem fingir preocupados com um Brasil que eles enterraram.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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