Que em 2016 a culpa seja somente nossa

Por: Felipe Sandrin | 01/08/2016 00:00:00

 

Começo a escrever meu primeiro texto de 2016 para o SERRANOSSA, percebo que estou caindo na política e apago tudo rapidamente. Recomeço, surge a palavra ódio no primeiro parágrafo e apago tudo de novo. Paro para pensar e me questiono: será que sou supersticioso? Em outros momentos, diria, facilmente, que não, mas, talvez, eu não estivesse recomeçando textos com medo de atrair coisas negativas para o ano que mal começou.
Há muitas explicações para esse medo do carma, a mais breve remete a minha educação. Fui batizado e criado no catolicismo. O representante desta religião morreu na cruz dizendo que a justiça do homem é falha, mas a de Deus não. Obviamente, meu subconsciente sempre reconhecerá a lei da reciprocidade. Se eu tivesse nascido em outro lugar do mundo – talvez uma tribo africana –, eu temeria tais leis de ação e reação? Muito provavelmente não.
Em 2016, você novamente muito irá ler e ouvir: “seja você mesmo”. Aliás, você já parou para pensar quantas vezes ouviu isso? E quantas vezes você parou para pensar sobre quem é você realmente? Ser você mesmo é um salto no escuro, pois tudo que somos em identidade não nasce pronto – identidade se constrói –, logo, o que somos não é o que somos, mas, sim, o que nos tornamos devido a uma série de fatores dependentes e independentes de nós.
E quanto mais conquistamos, mais escravos nos tornamos do que podemos perder. Quanto mais personalidade temos, mas instáveis ficamos diante do que realmente somos. Quanto mais temos, mais perigoso se torna o amanhã, pois, quando paramos para pensar, notamos que nada do que temos realmente nos pertence.
Então, sobre o que devo escrever no meu primeiro texto de 2016? Falo conscientemente e sou negativo diante das evidências do péssimo ano que o país no geral enfrentará? Ou me apoio na prerrogativa de uma religião pós-moderna que diz que aquilo que você deseja ao universo o universo lhe retribuirá? Devo começar este ano com um texto positivamente delirante, para, assim, não culpar este mesmo texto ao fim de 2016 se o ano for péssimo?
Tenho certeza de que esse dilema não é só meu. Vai dizer que no dia 1º de janeiro deste “novo ano” você não pensou algo tipo “Não vou fazer isso para não começar o ano mal”. Como se aquele gesto em um dia específico comprometesse o ano todo.
Meu mantra para 2016: viver sem olhar a vida de outros. Só isso. Não quero esbarrar com a inveja de ninguém, nem com as mentiras ou com a hipocrisia. Não quero precisar sorrir mais do que o necessário e nem fingir que não me importo enquanto aquele sentimento ruim zomba de mim.
Em 2016, quero ser o centro de meu próprio mundo. Quero me olhar como se só eu existisse para, assim, perceber o quanto sou mesquinho, medroso, invejoso, covarde, egocêntrico e traumatizado por coisas que fingi superar.
É isso que quero para este ano: ser minha pior companhia para, assim, poder não culpar o mundo pelo que tenho ou deixo de ter, por quem eu sou ou apenas finjo ser. Quero perceber meu pior tanto quanto o percebi em 2015, para, dessa forma, ter mais um ano incrível. Para novamente não colocar a culpa de meus fracassos em coisas estúpidas, como meu primeiro texto de 2016. Pois, ao fim tudo, aquilo que precisamos fingir não ser revela quem nos tornamos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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