Coma restos: bilhões de moscas não podem estar erradas

Por: Felipe Sandrin | 15/01/2016 00:00:00

 

Há coisas perdoáveis quando estamos de férias. Uma delas é ver, por alguns minutos, a TV aberta. Foi assim, nos últimos dias de 2015, em uma retrospectiva de um desses canais ridículos, que conheci Wesley Safadão: sim, eu nunca o tinha visto, nem escutado alguma de suas “músicas”.
Entretanto, 2016 começou da pior forma quanto a alguma esperança de mudança. Passei os últimos dias ouvindo as pessoas e a mídia comentando sobre o caso Ivete, no qual a cantora fala sei lá o que para sei lá quem sobre seu marido/noivo/namorado.
É, talvez eu seja um cara desinformado. Não conheço muito do universo artístico brasileiro atual, nem sei o que essa galerinha da pesada que faz da cultura nacional um lixo anda aprontando. Bem, talvez você não ache a cultura artística brasileira de hoje um lixo, mas isso por que, certamente, você não sabe nada da cultura mundial. Talvez, você pense que nomes como Adele, Sam Smith, Ed Sheeran, Bruno Mars, John Mayer, entre tantos outros, sejam produto de uma antiga safra estadunidense-europeia, coisa rara de surgir. Bem, não são.
Pergunto: que verdadeiros artistas o Brasil produziu na última década? Que ritmo musical modificou-se de maneira a evoluir letras e melodias? Que músico conseguiu despertar a atenção de seu público pela forma contundente com que abrange assuntos que disseminem algum conhecimento que não se refira a ser corno ou rebolar? É claro que um fã dessa porcaria toda que toca por aí não gosta de ler isso, mas eu nem vou discutir o gosto de gente limitada – estou me referindo aqui a uma comparação entre o que está sendo feito lá fora e o que anda sendo produzido aqui, no Brasil.
A crise de nosso país não é somente econômica e política: há um declínio na criatividade, um déficit quanto às capacidades de criação artística. Não há mais herança a ser deixada e tudo que ascende já surge com o carimbo de descrédito do público. Sim, pois a maioria dos artistas não é totalmente ignorante; se produzem conteúdo lixo é por saberem que essa é a máxima capacidade de entendimento de seus fãs.
O Brasil não produz mais nada referente à música. Paramos no tempo, aliás, pior que isso, regredimos. Regredimos não somente ao ponto de ouvirmos coisas ruins e cantarmos juntos: chegamos ao ponto de comentarmos e vermos as grandes mídias abordarem o fútil caso de Ivete.
Qualquer pessoa com o mínimo de condição pensante se sente ofendido diante dessa informação idiota, feita para idiotas. Sério: se você comentou o caso Ivete, está na hora de rever conceitos ou pelo menos parar de fingir ser um molde da sociedade crítica. Ninguém que pensa consegue sequer comentar uma idiotice dessas.
A era dos homens na terra está marcada pela arte. Homero, há quase três mil anos, embasava o sentido dos heróis, das buscas, dos medos, desafios e questionamentos do ser humano em seu plano existencial. Três mil anos depois, cá estamos, cada dia mais cornos com o sertanejo, mais vulgares com o funk e mais fúteis com as Ivetes e safadões com os Wesleys.
Visto de longe, é engraçadinho, bonitinho e necessário para fugirmos da seriedade dos dias caóticos que vivemos. Mas, visto de perto, é o declínio e parte da explicação do porquê as coisas só pioram.
Veja o mundo como está, tudo que ocorre, a necessidade dos seres humanos de se informarem e buscarem. Tudo tão ao alcance de nossas mãos e as pessoas falando e proliferando cada vez mais bobagens.
Aristóteles e tantos outros brilhantes avisaram: o mundo é mesmo dos medíocres e os medíocres sempre dão um jeito de não parecerem o problema do mundo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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