As lições que não aprendemos

Por: Greice Scotton Locatelli | 06/08/2018 06:00:32

Qualquer mudança na nossa rotina traz transtornos. Isso é fato e acomete todo mundo, sem exceção. De algumas crises desse tipo podemos tirar lições para que os impactos sejam menos importantes da próxima vez que ocorrerem. O que se percebe, dias após o fim da paralisação dos caminhoneiros, é que não aprendemos muitas delas dessa vez.

Primeira lição – e mais importante para quem vive em sociedade: respeitar. Algumas pessoas simplesmente esqueceram o significado dessa palavra durante os dias de paralisação. Alguns que optaram por parar as atividades não respeitaram quem seguiu trabalhando (por opção ou obrigatoriedade); muita gente que decidiu deixar de usar o carro desrespeitou quem queria desesperadamente abastecer; alguns que se deitaram no asfalto e impediram que postos abrissem não respeitaram quem estava há horas na fila esperando por gasolina; assim como alguns que fizeram estoques gigantescos de comida, desrespeitando o direito dos outros de também poderem comprar; e aqueles que achavam que o movimento mudaria o Brasil e não respeitaram o grupo que pedia intervenção ou a volta da ditadura militar. 

Ficou bem visível, sobretudo nas redes sociais, a falta de respeito quanto às escolhas dos outros – discussões, palavras de baixo calão e ofensas foram bastante comuns durante a greve. A regra é o que eu quero, o que eu defendo, no que eu acredito e os meus motivos. O resto que se dane!

Segunda lição: evitar o desperdício. Faltou combustível, gás e água, faltaram alguns tipos de alimentos, faltou certeza em relação a como seria no dia seguinte. Nas prateleiras dos mercados, atendentes se desdobravam como quem monta um quebra-cabeça para preencher espaços vazios causados por alguns itens (especialmente perecíveis), que esgotaram. A insegurança tomou conta de todos e muita gente que não planejava sequer a próxima refeição passou a fazer esquemas mentais do que e como ia cozinhar para não desperdiçar o pouco que tinha. Isso até a paralisação acabar. Nem bem as mercadorias voltaram às gôndolas, os velhos hábitos já estavam lá à espreita. 

Terceira lição: ter mais empatia. Sabe aquilo que eu sempre defendo, de não fazer com os outros o que você não quer que seja feito com você? Isso é empatia. E ter empatia, assim como respeito, não precisaria ser incentivado: deveria ser obrigatório. Se você discutiu com o atendente do mercado porque não tinha verduras frescas à sua disposição, gritou com o policial que tentava intermediar um conflito, cortou a frente de quem estava há horas na fila do abastecimento, ficou julgando quem queria abastecer sem saber o motivo ou ficou batendo boca com um caminhoneiro que decidiu aderir à greve, sugiro que da próxima vez se coloque no lugar do outro. Isso resolve muitos problemas.

Quarta lição: não acreditar em tudo que se ouve ou lê. A internet é ótima e as redes sociais (tipo Facebook) e aplicativos de troca de mensagens (como o WhatsApp) facilitam muito a nossa vida. Mas muita gente que usa essas ferramentas repercute baboseiras e inverdades. Isso só torna a histeria coletiva ainda pior. Perdi a conta de quantos “vídeos bombásticos” vazados, “áudios inacreditáveis” e “notícias gravíssimas” recebi durante os dias de paralisação e nenhuma – absolutamente nenhuma – era real. Desde conversa de ministro com assessor até informações inverídicas sobre a retomada da paralisação e casos de pessoas que tiraram a própria vida por causa da greve.

Aprender a conferir antes de repercutir é uma lição, aliás, que precisamos aprender não só em épocas de exceção, mas sempre, em todos os aspectos da nossa vida.

O fato é que, independentemente do que cada um defendeu durante os dias de paralisação, todos almejavam a mesma coisa: um país melhor e, ao mesmo tempo, a volta da normalidade do cotidiano. As coisas voltaram gradativamente ao normal. A melhora do país? Ainda estamos a anos-luz de uma certeza nesse sentido, apesar de todo esforço dos últimos dias.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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