Ranzinzas profissionais

Por: Greice Scotton Locatelli | 15/06/2018 06:00:48

Se houvesse uma regulamentação para a “profissão” de ranzinza, muita gente por aí ganharia dinheiro fácil “trabalhando”. Incrível como algumas pessoas fazem desse um hábito permanente de vida – e como é difícil se livrar dele, mesmo se policiando. Haja paciência para tanta rabugice. Quem convive com um “reclamão” entende bem isso.

Reclamar é algo inerente a todos os seres humanos desde sempre e, como vários outros comportamentos, ganhou força nas redes sociais. Pense bem: aposto que entre os seus amigos virtuais há aquele tipo o Smurf Ranzinza – vive de mau-humor, reclama de tudo, é sempre do contra – e que isso pode ser visto em praticamente todas as postagens que ele faz, deprimentes, revoltadas e sem esperança. Lembrei agora de um personagem ainda mais impactante, bem antigo, mas que fez sucesso entre várias gerações: o Hardy. Talvez você não recorde dele por nome, mas um jargão que ele usava ficou muito famoso. “Oh céus, oh vida, oh azar, isso não vai dar certo” foi a frase que o consagrou. Vem dizer que você não conhece alguém que se encaixa perfeitamente nessa descrição?

Sabe aquela pessoa que vive lamentando a falta de sorte ou de oportunidade, que se acha vítima de perseguição permanente (da família, dos amigos, do chefe, do vizinho, do mundo), que não vive – sobrevive – decepcionada com cada minuto de sua vida e se acha injustiçada o tempo todo? Pois é. Deve ser triste ser assim, não encontrar graça na vida, não aprender a rir das próprias mancadas, acordar e dormir sem fé.

Claro que os ranzinzas extremos não são maioria – ainda bem –, mas há um pouquinho deles em muitos de nós. Vamos aos fatos: se está frio, nos queixamos, pedindo a volta do verão. Se está calor, o contrário. Ficamos ansiosos esperando o final de semana chegar, aí reclamamos que a vida passa rápido demais, que envelhecemos e que as crianças de repente estão enormes – ah, mas quando eram pequenos, não víamos a hora de desmamar, engatinhar, caminhar, falar, depois de ir para a escola – cada fase com a sua reclamação específica. 

Preste atenção nas suas próprias atitudes: quantas vezes você reclama porque é segunda-feira e o final de semana acabou, porque o trânsito está congestionado, porque a fila do banco está demorada... situações simples do dia a dia pelas quais todos nós passamos, mas que não podemos transformar em motivo para queixas em tempo integral. Reclamar como forma de protesto, para exigir mudanças, é positivo. Mas reclamações que viram rotina e se transformam em queixas inúteis não. 

Essa rabugice constante cria um clima desagradável em casa, entre amigos ou no local de trabalho, por exemplo, e também faz com que esse comportamento pareça ser algo natural, quando não deveria. Como já escrevi em outros tempos, para isso é preciso vigilância (de atitudes, de pensamentos e de sentimentos) e, sobretudo, autoconhecimento, que nos ajuda a identificar quando reclamar virou apenas (mais um) péssimo hábito.

Quer mais um argumento? Reinterprete a palavra “reclamar”: “re-clamar”, ou seja, clamar, pedir ao universo que mande mais daquilo que você está odiando.

Comece a observar suas próprias atitudes e se questione: como eu posso minimizar as minhas queixas inúteis hoje?


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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