Vai, menino Neymar!

Por: Felipe Sandrin | 22/06/2018 06:00:09

Final de partida, 1 a 1. Eis que o narrador fala, convicto: “A torcida brasileira parece abalada depois do empate”. Abalada? Olha só: moramos em um país no qual nossa principal torcida é para que aqueles que amamos voltarem vivos para casa. Nesse país há hoje mais bandidos soltos do que presos, o índice de estupro é um dos maiores do mundo. Nosso país ocupa o primeiro lugar em taxas de homicídios no planeta. Quer violência? Toda esquina tem. Políticos? Uma piada. Saúde? Lixo. Educação? Não há nem adjetivos para classificar.

Muitos argumentam “Temos que separar o futebol da política, uma coisa não tem nada a ver com a outra”. Ah é? E os mais de dois mil dirigentes futebolísticos que ingressaram na política nos últimos anos? E os escândalos envolvendo a CBF? E os estádios da nossa Copa do Mundo? Aliás, valeu a pena nossa copa né? Realmente, o Brasil se tornou outro país após aquele megaevento. Quem esbraveja sobre “separar as coisas” é mais sem noção da realidade do que o narrador e seu “os brasileiros estão abalados com o empate”.

Vou falar uma coisa: se no meio do jogo uma vaca descer de um helicóptero usando uma máscara do zorro e assaltar o Neymar, ainda assim não vamos nos abalar. Sentimento ruim o de empatar com a Suíça? Olha, se tem gente que deveria ter ficado desapontada seriam eles: certamente eles tem muito menos coisas para se preocupar do que nós.

Dê uma olhada nas ruas em uma segunda-feira, às 7h da manhã. Pergunte para um trabalhador brasileiro que estiver na correria sobre o quanto ele está abalado com qualquer coisa que ocorra nessa coisa chamada Copa.

Brasileiro ama dar essa resposta “não dá para misturar as coisas”. É aí que mora boa parte do problema: nossa incapacidade de perceber que tudo está interligado acaba nos enterrando cada dia mais. Por exemplo, vocês viram aquele grupo de brasileiros humilhando a moça que não falava nosso idioma? Quem em sã consciência acha aquilo normal? Muitos brasileiros. Sim, eu vi muita gente classificando aquilo como sendo “normal”. “É porque somos um povo alegre”, dizem.

Quem viajou e ficou uns bons meses fora do Brasil sabe o que se pensa do nosso povo. E se você fez turismo por 20 dias na Europa, não fique achando que conhece a realidade do retrato como somos vistos. Nossa fama nos precede. Por quê? Talvez porque o narrador esteja certo e nosso povo se abale com um empate no futebol.

Enquanto não tirarmos essas malditas muletas de nossas mentes, enquanto não entendermos que somos, sim, parte da sarjeta do mundo, não haverá como existir mudança. E parem para pensar: será que nós evoluímos como povo nos últimos anos? Não consigo ver isso, aliás, apenas noto um abandono cada vez maior de qualquer valor moral. Nós decidimos simplesmente aceitar o que éramos: e isso é o pior que pode acontecer a um povo com valores tão distorcidos. 

Não, eu não torço contra a seleção Brasileira. Por vezes eu até fico diante da televisão. Se vai vencer ou não? Isso já não faz diferença. Nós aprendemos a nos importar com coisas pequenas enquanto fechamos os olhos para o mar de lama que cruza nossa sala. Até que um dia não conseguimos mais respirar. Nossas últimas palavras: Vai... Neymar!


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 677
14/09/2018 08:00:05
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA