Onde desliga?

Por: Felipe Sandrin | 29/06/2018 06:00:48

Olhe à sua volta neste exato momento: há pessoas próximas de você? O que elas estão fazendo? Há celulares à sua volta? E o seu celular, onde está?

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto do Sono revelou que mais de 70 milhões de brasileiros têm dificuldades para dormir. O mais assustador é como o índice cresce a cada década. Afinal, temos mais motivos de preocupação do que nossos bisavós tinham? Será nossa vida tão mais difícil do que a vida de cinquenta anos atrás? Lembre-se que nossos antepassados lutavam pela sobrevivência. Ao contrário das lutas de consumo atuais, nossos pais e avós tinham por objetivo necessidades básicas como alimentação e lenha para o fogo que manteria a casa aquecida. Por que, então, dormimos tão mal se comparados a eles?

Criamos a necessidade do não desligamento. O simples fato de sairmos sem o celular fomenta uma sensação de insegurança. “E se algo acontecer?”, “E se seu sofrer um acidente e precisar chamar ajuda?”, “E se alguém precisar com urgência de mim?”. Nunca paramos para pensar que existiu uma época em que a comunicação não era imediata. Como então essas pessoas de outras décadas sobreviveram? Dentro dessa sensação de insegurança que nos cabe quando estamos distantes de um aparelho que permite comunicação fácil, existe, na verdade, uma necessidade subconsciente para justificar uma máxima proximidade entre nós e nossos aparelhos.

Nós nos tornamos, assim, partes desse aparelho. Nossas vidas sociais passaram a fazer parte das redes sociais. A sensação de que o que não está na rede não ocorreu é cada vez mais nítida. Uma viagem que não seja documentada, um Dia das Mães em que você não homenageie sua mãe com uma foto on-line... todos esses laços criados pela grande rede se tornaram o fator determinante para a definição entre o que realmente aconteceu e o que aconteceu apenas para nós.

De 2014 até 2018 o ser humano produziu mais informação do que nos 70 mil anos anteriores. Ou seja: tudo o que documentamos, escrevemos, fotografamos e produzimos de informação a respeito do mundo e de nós mesmos em míseros quatro anos foi infinitamente superior ao registrado durante 70 mil anos.

O que antes era uma carta que levava no mínimo sessenta dias para ser lida e respondida, logo se tornou um telefonema que era retornado em horas. Por fim, hoje nos deparamos com a instantaneidade – se não da resposta, da certeza de que o outro recebeu a informação. Vivemos na era do visualizado, vivemos uma constante espera, uma ansiedade que não pode mais ser treinada, pois tudo que demande tempo precisa ser reinventado e aperfeiçoado em uma ferramenta de informação imediata.

Perdemos o sono não pelo excesso de problemas: não, nossos problemas não são piores do que os de décadas anteriores. Nossa falta de sono emana de uma mensagem subconsciente a qual nos acostumamos: eu estou perdendo tempo enquanto não estou resolvendo problemas e repassando informação. Assim acordamos e em pouco tempo olharemos nossos aparelhos. Antes de dormir, precisamos checar algo que, em geral, não sabemos o que é.

Olhos cansados não impedem uma última olhada para a tela. No geral quase sempre não há novos acontecimentos, mas isso não importa. O importante é não negligenciarmos a regra, mesmo que a regra seja 70 milhões de pessoas que não conseguem dormir direito.

Se seguirmos no ritmo dos últimos 20 anos, poderemos constatar que os filmes onde o mundo acabava tomado por zumbis estavam certos. O terror por vezes se disfarça em coisas agradáveis e falsamente necessárias em seu exagero.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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