Eu passei a ter pena das pessoas que me desperdiçaram

Por: Felipe Sandrin | 22/01/2016 00:00:00

 

Pode parecer presunçoso – e, em partes, deve mesmo ser –, mas, de um tempo para cá, passei a entender o quão valiosa é minha companhia. Afirmar que alguém perde algo por simplesmente não estar comigo pode parecer um mero esforço do ego para se firmar, mas se tem algo que sei sobre mim é o quanto posso me doar a alguém.
Sei que muitos vão entender o que escrevo, pois sei, também, que há muitas outras pessoas desperdiçadas por aí. Pessoas inteligentes, entregues, cheias de energia e vida, que escolhem alguém e por ele desafiam-se, enfrentando medos e se esforçando com toda sua verdade para que aquilo dê certo.
Aliás, sempre queremos que tudo dê certo, quando envolve uma segunda pessoa, então, é aí que conhecemos o poder de nosso desejo e nossa real força de vontade. Porém, há um ponto importante a se destacar aqui: assim como não importa o quão forte sejamos diante de um rio, também, na maioria das vezes, nossa força de vontade pouco significará aos outros. Assim como a imensidão de um rio nos faz indiferentes em meio ao seu turbilhão, também o somos, em nossos esforços, na perspectiva do outro ao qual dedicamos esse esforço.
Esse é um dos principais motivos que levam a maioria das relações a não dar certo. Não importa quanta força você faça, quanto você esteja se entregando e desafiando-se: aos olhos do outro, só cabem os próprios esforços. Nós aprendemos a reconhecer nossas lutas, mas também nos tornamos obcecados por nossa própria imagem e sentimentos. Dessa forma, quase não nos sobra espaço para também reconhecer o outro.
Por isso, passei a ter pena das pessoas que me desperdiçaram, das pessoas que não me perguntaram como eu me sentia ou mesmo o que eu pensava sobre como elas se sentiam. Passei a ter pena das pessoas que não puderam ouvir minhas histórias, entender o porquê de meus defeitos e aproveitar o máximo de minhas qualidades. Passei a ter pena das pessoas e percebi que também tinha pena de mim – percebi o tanto que perdi em outros por cometer os mesmos erros que eles.
Sei também que, por muitas vezes, esse desperdício ocorreu pela minha própria culpa, por não saber demonstrar o quanto eu tinha a oferecer.
Podem dizer então que me tornei uma pessoa fechada, mas questiono: não são geralmente as portas fechadas que guardam os itens mais valiosos?
Eu sei o que mora dentro de mim e por isso tenho pena das pessoas que me desperdiçaram, que me desperdiçam e ainda irão me desperdiçar. Mas, ao mesmo tempo, eu não preciso entregar as chaves do melhor que guardei de mim e sobreviveu ao descaso de tantos.
Talvez, por isso, o tempo nos torne mais seletivos, mais chatos e prontos a perceber o que não nos agrada no outro. Diante dos anos, nós percebemos o que perdemos e o que deixamos de entregar, e passamos, então, a tentar escolher mais sabiamente a quem doaremos tudo aquilo que para nós é tão único e sagrado.
E isso é o mais importante: aprender que nem todos merecem o nosso melhor. Aprendermos a não nos desperdiçar. 

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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