Quem manda em quem?

Por: Greice Scotton Locatelli | 07/06/2018 06:00:45

Em uma festa de aniversário, o comportamento de uma menina de cinco anos de idade chama a minha atenção. Ao contrário dos amigos, ela mal toca nos cachorros-quentes, salgados e docinhos. Ela está visivelmente abaixo do peso e aparenta ser bastante tímida. A mãe confirma: ela se acha gorda e tem aversão a comer em público, comportamento similar ao que o irmão, 15 anos mais velho, teve a vida toda. Não é difícil imaginar o que a espera em um futuro não muito distante: aposto todas as minhas fichas em transtorno alimentar – e do tipo bem grave.

Em um restaurante movimentado, uma menina que aparenta ter três anos se joga no chão e faz um escândalo “daqueles”. Ela quer jogar no celular e o aparelho ficou sem bateria. Aos berros, começa a falar palavrões e dizer que odeia os pais. De quebra, acusa a mãe de ser “burra” por ter deixado a bateria acabar. Visivelmente abalados, os pais se retiram antes do fim da refeição e discutem sobre a “reincidência” da cena na frente da garota, que segue chorando alto. 

O que os dois casos têm em comum? Evidenciam um problema grave no qual muitos adultos não estão prestando atenção: a falta do básico. Quando digo adultos não me refiro somente a pais e mães – que a meu ver já sofrem julgamento demais –, mas a qualquer pessoa que tenha contato ou envolvimento na criação dos pequenos. Por “básico” pode-se entender desde ensinar bons modos até não considerar “normais” certos comportamentos infantis. 
Um texto que tem tido ampla repercussão nas redes sociais alerta justamente para uma tragédia silenciosa que está se desenvolvendo na maioria dos lares e que vai muito além da ausência de limites ou da falta de percepção dos pais. A publicação, atribuída ao psiquiatra Luís Rajos Marcos, faz menção a proporções endêmicas que doenças mentais na infância têm atingido nos últimos 15 anos.

Segundo o texto, uma em cada 5 crianças tem problema de saúde mental e foram observados aumentos significativos nos índices de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH (43%), de depressão adolescente (37%) e, o mais grave a meu ver, na taxa de suicídios entre crianças de 10 a 14 anos (200%). 

O que está acontecendo e o que estamos fazendo de errado? 

A resposta é tão simples quanto o que está faltando: o básico. Criança precisa de adultos emocional e fisicamente disponíveis, limites definidos, alimentação e sono adequados, atividades ao ar livre. Criança precisa brincar! 

Agora pense em como anda a relação entre quem deveria zelar pelas próximas gerações e os pequenos que fazem parte delas. Adultos permissivos, que deixam as crianças fazerem o que bem entendem (muitas vezes por sentirem culpa pelo fato de não terem um tempo de qualidade junto delas), celulares ligados o tempo todo (com a desculpa de distrair ou eliminar o tédio), estilo de vida sedentário, estimulação a mil (agendas infantis lotadas de compromissos e afazeres), comida congelada entupida de conservantes e sono inadequado. 

Por outro lado, pense na pressão que os adultos sofrem, em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e enxuto, tendo que se virar para dar conta de tudo, instáveis financeira e emocionalmente e, de quebra, sendo julgados a cada decisão tomada em relação aos pequenos. 

O texto ao qual eu me referi traz uma lista de uns 20 tópicos tidos como ideais para melhorar a infância. Alguns são bem simples, outros são irreais para a maioria das famílias. Mas, no fundo, todos eles trazem o básico como elemento principal. E talvez seja isso que todos nós precisamos para sermos pessoas melhores: fazer e ser o exemplo de que o básico pode, sim, mudar o mundo.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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