A incapacidade disfarçada de azar

Por: Felipe Sandrin | 07/06/2018 06:00:18

Todos nós estamos envoltos pela contínua busca, a busca por um bom relacionamento, por um bom emprego, por uma vida equilibrada que nos permita desfrutar de sensações as quais nos lembrem que essa vida vale a pena. Há, no entanto, entre nós – e talvez esses sejam até a maioria – os ditos desafortunados, podemos, inclusive, nos considerarmos esses. Os desafortunados são aqueles para quem a dita sorte não sorri. Se entrarem em dez relacionamentos, os dez acabam mal, no trabalho os problemas insistem em chegar, suas vidas são baseadas em uma constante negativa do “Eu sabia”.

Pois me convenço cada vez mais que o que muitos chamam de azar é a mera incapacidade. Pois, se tentam dez relacionamentos sem sucesso, tentam por dez vezes da mesma forma. Se fracassam em encontrar prazer no trabalho, ainda assim seguem a desempenhar as mesmas funções. Não são desafortunados pelo azar na escolha, são porque insistem em não aprender e não aprendendo nunca acertam nas escolhas.

E não me refiro aqui ao imprevisível, a uma doença, a um infortúnio que uma esquina trouxe e modificou nossa vida. Não falo de fatalidades únicas, falo de fatalidades repetidas, as mesmas, apenas com outros cheiros e gostos.
Como, afinal, você pode exigir alguém diferente se a limitação é sua? Sonha com uma relação melhor, mas o que você teria a oferecer para alguém melhor? Não seriam aqueles que você atrai apenas uma prova das suas próprias limitações? ‘Ah, mas ela merecia melhor sorte’, mas, se a vida é continuação, o que impede que a decepção de hoje fique no passado e ao futuro caiba um novo rumo?

Aprendemos a terceirizar a culpa diante nossa incapacidade, a culpa passa a ser sempre dos outros, culpamos até nossos ditos gostos, repetimos “Tenho o dedo podre para as escolhas”. Não, não se trata de uma maldição, trata-se simplesmente da sua própria limitação.

O mundo não é composto por muletas as quais nos servem como em um jogo de dados. Se uma tartaruga ganhasse um milhão de reais do que lhe adiantaria? Se a você surgir hoje alguém que mudará sua vida, o que em você fará essa pessoa permanecer ao seu lado? Se hoje uma oportunidade maravilhosa lhe surgir à mesa, qual seria sua capacidade para usar dessa oportunidade.

Tenho certeza que a sorte bate à porta de todos nós todos os dias, os que a agarram não agem por impulso, mas por terem a percepção treinada. Pode alguém dizer então: ‘A pessoa tem sorte pela sua percepção’, essa definição simples ocultaria por fim que a perceptividade se desenvolve com inúmeras quedas e tentativas. A insistência provendo de uma inteligência emocional que se desenvolve através dos fracassos, é assim que alguns desenvolvem essa dita sorte enquanto outros passam a vida sem sair do morno de suas infelizes vidas.

Pense bem ao apontar a culpa, cuidado ao terceirizar os erros que na verdade só pertencem a você. A imensa maioria das pessoas não progride porque durante a vida não potencializa suas capacidades, elas não se tornam atrativas o suficiente para o que lhes chega de melhor. O bom bate à sua porta, mas, ao perceber o inquilino, o bom se vai, deixando apenas a sensação do quase.

Você recebe o que oferece. E só permanece aquilo que você possui habilidades para segurar.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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