Por pouco, de novo!

Por: Greice Scotton Locatelli | 13/07/2018 06:00:26

Mais um ano de Consulta Popular e mais um ano de participação irrisória. O processo de escolha das prioridades de investimento do governo estadual teve, assim como em etapas anteriores, uma mobilização praticamente simbólica em Bento e, de novo, a classificação do município esteve muito perto de não acontecer.

Dos 89.382 eleitores de Bento, somente 4.008 (4,48%) se deram ao trabalho de perder 2 minutos – não levei nem isso – para entrar no site e escolher a demanda que considerasse prioritária ou ir até um dos locais de votação e fazer isso pessoalmente. Eu sei, seu dia é megacorrido, há compromissos, pressão e você tem um monte de coisa na cabeça. Eu também, assim como a maioria esmagadora das pessoas que eu conheço. 

Entretanto, embora continue achando uma irresponsabilidade se eximir de participar de ações assim enquanto cidadãos, também sei que quem não fez a sua parte pode não ter toda a culpa nessa história. Aliás, a desilusão geral com a política é tão grande que por si só justificaria a baixa adesão. 

Mas vai além. Embora democrático e válido, há uma falha prática – na minha opinião – que desmotiva qualquer mobilização em larga escala tal qual a Consulta Popular: a falta de uma meta concreta (e clara). Há um abismo de diferença entre você dizer para as pessoas “vote na demanda ‘x’ para que Bento Gonçalves tenha mais viaturas para a Brigada Militar” ou “vote na demanda ‘x’ para mais investimentos em segurança”. É muito vago, genérico e abstrato, algo difícil de ser medido ou comprovado se realmente foi cumprido.

Já mencionei neste mesmo espaço e repito: eu participei diretamente da histórica Consulta Popular de 2006, quando mais de 39 mil bento-gonçalvenses (lembre-se: neste ano foram pouco mais de 4 mil – quase dez vezes menos!) se mobilizaram para conquistar o aparelho de Radioterapia anos mais tarde instalado junto ao Hospital Tacchini. Eu sei muito bem como é fatigante tentar convencer as pessoas de que o voto delas pode fazer a diferença ou que vale a pena perder uns poucos minutos do dia em torno de algo que vai trazer benefício para muitos. Assim como também conheço a sensação de ter participado de algo e, depois de um tempo, se sentir frustrado por esse esforço ter sido aparentemente em vão. Isso porque mobilizar mais de 39 mil pessoas pareceu fácil se comparado à luta que foi para trazer o aparelho para a cidade após a conquista: o empenho do valor – mais de R$ 1 milhão – ocorreu mais de dois anos depois e o equipamento só foi instalado cinco anos mais tarde, em 2011. Mas ainda assim chegou e ajuda muita gente até hoje. 

A diferença entre aquela Consulta Popular histórica e a dos anos que se seguiram? O objetivo. O jeito genérico como as propostas são apresentadas, sem algo específico a ser conquistado, dificulta o entendimento de pessoas – que já não têm como hábito o engajamento em causas coletivas. Mas essa é a minha visão e talvez quem participe e organize iniciativas desse tipo nos dias de hoje tenha um argumento convincente que derrube essa minha tese.

Eu fiz a minha parte tanto como jornalista (na hora de divulgar a informação, várias vezes) quanto como cidadã (votando). Mas sei que muita gente deixou de fazê-lo por desconhecimento, descaso ou simplesmente por não acreditar mais na política.  
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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