Ou controlamos a fera ou a fera nos devora

Por: Felipe Sandrin | 29/01/2016 00:00:00

Nesta semana, os dois assuntos que mais abordei ao longo dos últimos anos surgiram através de números estarrecedores.
No primeiro tema, referente à violência, um dos argumentos que mais escuto dos bairristas que não aceitam o absurdo que se tornou o Rio Grande do Sul é “mas todo lugar está assim”. Primeiro: quem diz isso certamente não conhece lugar algum. Segundo: esse tipo de argumentação geralmente é usada no Ensino Fundamental.
Para se ter uma ideia do absurdo que esse Estado chegou, nossa capital ocupa a 43ª posição entre as mais violentas do mundo. Isso mesmo, é um daqueles lugares do planeta onde caberia uma placa avisando: “Não entre. Perigo de morte”.
Para os que acham que a violência passa longe da Serra Gaúcha, sugiro que deem uma olhada nos números do ano passado de Bento Gonçalves e Caxias do Sul. As duas cidades simplesmente ultrapassaram os números classificados como epidêmicos no aspecto violência.
Volto a afirmar a quem se conforma com o argumento “todo lugar está assim” que entre todas as cidades em que estive no ano passado poucas me fizeram sentir mais ameaçado do que, respectivamente, Bento Gonçalves, Farroupilha, Caxias do Sul e Porto Alegre.
Por que faço questão de frisar isso? Para reafirmar que nosso bairrismo se tornou antiquado, contraproducente e, por fim, vexatório. Ou o povo gaúcho passa a demonstrar o amor pela sua terra de forma a lutar verdadeiramente por ela ou para com essa besteira de superioridade em relação a outros Estados. Do jeito que está, não dá mais. As cabeças mais pensantes estão indo embora devido a essa arrogância com que tratamos assuntos meramente na base das comparações.
Para o segundo tema, números igualmente estarrecedores. O suicídio já é a segunda maior causa de óbitos entre pessoas de 15 a 29 anos no Brasil. Em 15 anos, os casos aumentaram 10% e ultrapassaram, por exemplo, as mortes por HIV. Para os próximos dez anos, estima-se um salto ainda maior.
Por várias vezes afirmei que o ser humano está passando pela época mais triste desde que começamos a registrar nossa história neste planeta. Não posso comparar a fase atual que vivemos com o período das cavernas, mas consigo imaginar que aquele bando de Neandertais, que precisavam caçar animais maiores que eles usando pedaços de pau, eram menos infelizes do que nossas atuais gerações, com seus celulares e micro-ondas.
A violência até então justificada começa a dar indícios de que Hobbes estava certo: é o homem lobo do homem. Quanto mais temos, quanto mais prático se torna viver e quanto mais tempo nos sobra, menos parecemos saber lidar com as angústias. Não parece existir uma forma de propriamente acabar com nossa violência, isso porque ela compõe um instinto que talvez nos tenha ajudado inclusive a sobreviver a épocas mais selvagens. Mas começa a se tornar mais claro o sinal de que precisamos reavaliar a forma como lidamos com ela e como educamos nossas crianças, que, ao que tudo indica, tendem a se tornar ainda mais depressivas. Estamos criando uma geração ainda mais triste à medida que insistimos na palavra felicidade e transferimos ao próximo a incumbência de descobrir o real significado do que é ser feliz. 
Não vejo outro caminho: ou controlamos a fera ou a fera nos devora.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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