A era dos broxas invejosos

Por: Felipe Sandrin | 20/07/2018 06:00:31

Eu conheço diversas pessoas com mais estudo e diplomas do que o Bill Gates. Conheço também muitas pessoas que nasceram em famílias com muito mais dinheiro do que o Bill Gates. Sim, talvez você se assuste ao saber disso, mas o homem mais rico do planeta não nasceu sobre ouro, nem teve na condição de um ótimo estudo o reflexo de seu extremo sucesso. Alguns vão dizer ser ele uma exceção, mas acredite: a única exceção na qual Bill Gates se encaixa é de nunca ter aceitado o vitimíssimo.

Em 1987 a revista “Forbes” começou a elaborar e publicar a lista das pessoas mais ricas do planeta: se você procurar por essa lista a encontrará facilmente. Agora, se você traçar um paralelo e comparar a publicação de 1987 com a atual algo poderá lhe surpreender, pois você não encontrará praticamente nenhum sobrenome daquele ano presente hoje. Sua primeira reação será pensar: ‘Eles devem ter morrido’, mas não, na verdade o que ocorreu foi o definhamento dos estrondosos patrimônios. Se a máxima de que apenas o verdadeiro aço resiste ao teste do fogo for verdadeira, talvez ela também sirva aos herdeiros. E esse é o fato: herdeiros tendem a queimar boa parte das fortunas recebidas.

Todos nós escutamos a frase: ‘Vem de família rica’, mas com que parâmetro julgamos a riqueza e como a intercalamos na vida daquele indivíduo? Felicidade se mede por riqueza? Por que então os índices de suicídios são sempre maiores em famílias com condições de vida ditas superiores a da maioria? Você herdar uma fortuna lhe coloca em um estandarte de sucesso? Por quê? Por poder frequentar festas caras e morar nos lugares badalados de uma cidade?

Quando analisamos que vencer na vida diz respeito ao patrimônio automaticamente podemos sim demonizar as heranças, a má distribuição de renda e o efeito das grandes fortunas sobre o mercado atual, mas quando simplesmente submetemos a julgamento o que se recebe e não o que se transforma, logo, nos tornamos mesquinhos, invejosos e passamos a pertencer aos 99,99% de uma população que se move pelo fracasso alheio.

Os maiores empresários brasileiros saíram do nada. Um exemplo: Alexandre Tadeu da Costa, que concluiu o Ensino Médio e foi vender chocolates com um Fusca 78 hoje é o dono da maior chocolateria do Brasil. Mais uma vez aqueles que têm como sucesso o fracasso de outros vão dizer: ‘É uma exceção’.  Pois bem, quantas pessoas você conhece que são donas de muito mais capacidades que outras e ainda assim quase nada produzem? Quantos empregos geram aqueles que ocupam cargos públicos e ganham 10, 20, 50 mil reais? Qual riqueza essas pessoas produzem como funcionários do Estado? Lembrem-se sempre que a única função do Estado é punir os desonestos, logo, em uma sociedade honesta o Estado se torna inútil.

Vivemos, sem dúvida alguma, na sociedade mais invejosa de todos os tempos. Inveja-se a beleza, o dinheiro e até a humildade. Inveja-se a capacidade de produzir riqueza do nada e invejam-se os herdeiros que queimam suas heranças. A inveja é o motor de uma mediocridade que aprendemos a incorporar como um paliativo para a triste realidade daqueles que por não conseguirem grandes feitos atribuem seus fracassos a algo que lhes falte.

É a era da inveja, pois é a era dos incapazes.  E antes fôssemos uma geração de broxas, mas nem próximo da hora H conseguimos mais chegar. Broxamos antes mesmo de começar.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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