O golpe do (des)amor

Por: Greice Scotton Locatelli | 27/07/2018 06:00:04

É muito fácil apontar o dedo para os outros e julgá-los. Que atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro, por ingenuidade ou desconhecimento, ou nunca se iludiu ou foi vítima da maldade alheia.

O “Golpe do amor”, que tem feito vítimas recentes em Bento Gonçalves – conforme repercutido recentemente pelo SERRANOSSA –, não chega a ser novo, mas ainda provoca muito sofrimento. De forma resumida, mulheres com mais de 50 anos, divorciadas, separadas ou viúvas e com perfis em redes sociais, são atraídas por golpistas que se dizem militares, atletas ou pessoas com empregos bem-sucedidos no exterior. Eles conversam via internet e, com a lábia típica, fazem com que as vítimas acreditem que estão apaixonados e com intenção de namorar e até mesmo casar. Nesse meio-tempo, convencem as mulheres a depositarem dinheiro com as mais variadas desculpas. Obviamente, quando conseguem (e quase sempre conseguem!), desaparecem. 

Você pode pensar que é ganância ou até burrice – é tão simples julgarmos as atitudes alheias quando o problema não é com a gente! Mas acho que tem algo bem mais fundo nesse tipo de golpe. Tem a ver com carência, falta de amor próprio, solidão. 

Antigamente, casamentos duradouros – mesmo que extremamente infelizes – eram praticamente obrigatórios. O “até que a morte os separe” era seguido à risca. Hoje em dia – ainda bem – a liberdade é muito maior. Mas essa flexibilidade nas decisões acerca dos próprios sentimentos cobra seu preço. O número de relacionamentos que dão errado cresce a cada dia e a tendência, cada vez maior, é que as pessoas acabem sozinhas. E solidão é sinônimo de vulnerabilidade, na maioria das vezes.

Mas não é só a “solidão amorosa” que torna essa situação dramática. É a solidão generalizada, a falta de amigos de verdade, com quem se possa contar não só na hora da diversão, mas naqueles momentos em que o mundo fica em ruínas. A falta de apoio da família, o julgamento dos conhecidos, a indiferença: é isso que torna as pessoas solitárias e suscetíveis a qualquer migalha de atenção que alguém possa oferecer.  

E o cenário tende a piorar com o passar dos anos. Tanto que um novo serviço está se popularizando: o “neto de aluguel”. Trata-se de pessoas ou empresas que se especializam em serviços que possibilitem melhorar a qualidade de vida e diminuir a solidão em idosos, desde ensinar a usar o computador até levar para consultas médicas ou passeios ou, simplesmente, fazer companhia. É a versão para a terceira idade do “marido de aluguel”, que surgiu há alguns anos e hoje é bastante comum, em que profissionais oferecem serviços em geral para a casa, desde demandas simples do dia a dia, como trocar uma lâmpada ou pequenos consertos, até reformas de maior porte.

Que bom que somos criativos o suficiente para nos adaptar às diferentes situações que surgem com o passar do tempo – esse é o lado positivo. Mas é preciso um empenho conjunto e uma atenção redobrada para ajudarmos as gerações mais velhas a se adaptarem a essa nova velocidade em que as coisas acontecem. Por mais difícil que isso seja – tem bastante gente teimosa por aí – é preciso muito cuidado quando assuntos como a carência decorrente da solidão e o anonimato da internet se misturam. Embora os bons sejam maioria, há sempre alguém com segundas intenções à espreita, só esperando pela vulnerabilidade alheia.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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