Dividir para conquistar

Por: Felipe Sandrin | 08/03/2018 06:00:06

Classe alta contra classe média, pobre contra rico, negro contra branco, mulheres contra homens. Quando alguns poucos estudiosos afirmaram que caminhávamos em direção a uma era de embate entre pessoas iguais que foram levadas a pensar serem diferentes, não podíamos imaginar que chegaríamos a esse nível.

O pré-conceito é o juízo pré-concebido e, ao contrário do que muitos pensam, esse juízo não é de agora. Desde os primórdios e em todos os espécimes, o instinto de sobrevivência se desenvolveu com base nos iguais. A semelhança era mais que atraente, ela era sobrevivência. A ruptura dos credos ligados ao pré-julgamento se deve não à evolução fisiológica, mas, sim, à nossa evolução social. São as regras sociais que hoje contornam o julgamento por similaridades. A sociedade imprime a regra a cada novo ser que nela surge e assim definimos os valores, as punições e as próprias mudanças que vão decorrer dessa escala social.

Um negro não odeia um branco por ele ser branco, ele se protege, sim, da diferença. Eis que parte da construção social das últimas décadas tenta trazer à tona o respeito diante das diferenças. Mas qual é a falha desde sistema se hoje nos deparamos com um mar de notícias que manifestam preconceitos? A falha é que o nosso mecanismo ainda é primitivo e busca “os iguais”. Temos quantos anos como seres da modernidade? Duzentos? O que são duzentos anos comparados aos 2,4 milhões de anos durante os quais fomos envoltos pelas mesmas regras cognitivas de sobrevivência.

A igualdade – ao contrário do que muitas pessoas montadas em unicórnios pensam – não é um quesito a ser recuperado, mas percebido e ensinado. É o convívio que faz semelhantes, é o dissolver dos termos. Se vivemos uma era de preconceito latente, muito se deve à volta dessa percepção. Se o debate público tange o negro e o branco, a mulher e o homem, o gay e o hétero, logo, não tardará para – automaticamente – todos passarem a usar esses critérios de classificação. Quando antes mesmo de falar algo você analisa a cor do outro, quando antes de qualquer outro pensamento você precisa saber a opção sexual de uma pessoa, logo, você tem um problema ainda mais latente do pré-conceito.

Não há outra forma de conquistar se não essa: você precisa dividir. Quando o nordestino passa a ser o problema do Brasil, quando o branco passa a ser o opressor, quando o estadunidense passa a ser explorador, você então pode juntar grupos e colocar uns contra outros.

O povo brasileiro acreditou durante muitas décadas na guerra de classes e aí está o resultado. Há menos políticos corruptos hoje do que há 20 anos? Com certeza não. Como se criou essa massa política podre? Através da nossa cegueira. Estávamos preocupados demais com nossos vizinhos e assim esquecemo-nos daqueles que poderiam realmente nos prejudicar.

O Brasil vive uma guerra urbana. Estamos no país que mais mata no mundo. Por quê? Porque mesmo os marginais acreditam que suas vítimas são as culpadas. Fomos levados a temer mais as esquinas de nossa cidade do que os corredores de Brasília.

Mas a quem interessa esse jogo? Aos que nos controlam. E quem são? Basta você ligar a TV e saberá. Através das notícias manipuladas, do jornalismo tendencioso, das grandes mídias. Foram essas pessoas que construíram o Brasil que agora escorre até a latrina dos absurdos.

Dividiram para conquistar. Guerra dos sexos e das cores. Fingimos ser todos brasileiros, quando na verdade nunca antes fomos tão desunidos como pessoas e país.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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