Notícias que nos surpreendem

Por: Greice Scotton Locatelli | 08/10/2018 06:00:19

A repercussão que algumas notícias têm (ou a falta dela) muitas vezes nos surpreende. Geralmente informações supérfluas – ou inúteis, grosseiramente falando – acabam tendo mais relevância para alguns leitores do que aquelas que realmente podem fazer a diferença na vida deles. Não é à toa que colunas de fofoca, por exemplo, atraem muito mais atenção do que reportagens bem trabalhadas sobre temas que dizem respeito à rotina de todos. Faz parte e é bastante comum, infelizmente. 

Eu sei que as notícias “light” têm seu motivo de existir: a correria em que vivemos soma-se ao acúmulo de cansaço, frustrações e estresse e faz com que, ao chegarmos em casa tarde da noite, exaustos e ainda tendo uma dúzia de coisas para resolver antes de dormir, prefiramos algo que não nos lembre do quão pesado o dia foi. É quase uma válvula de escape. Só que é necessário nos inteirarmos desse tipo de assunto para desempenharmos o nosso papel enquanto cidadãos e ajudarmos a tornar o mundo um lugar melhor para se viver.

E não é que, na última semana, aconteceu justamente o contrário? O retorno que a matéria sobre a Usina de Resíduos Sólidos teve foi surpreendente, positivamente. Eu elaborei o texto, por isso sei muito bem como foi difícil simplificar o conteúdo para que pessoas leigas – como eu – compreendessem o que seria o projeto e fiquei estarrecida com a repercussão que o assunto teve – para você, leitor, ter uma ideia, foram mais de 123 mil acessos no nosso site. Na fanpage, outros mais de 850 compartilhamentos – e esses números seguem crescendo a cada hora. É muito bom perceber que as pessoas ainda se preocupam com notícias que impactam a vida da comunidade, mesmo que isso aconteça bem menos vezes do que seria o ideal.

Caso você não esteja a par do assunto, a Parceria Público-Privada (PPP) anunciada na última semana pela prefeitura visa resolver o problema do lixo de uma forma definitiva, transformando os resíduos orgânicos em energia, e está em fase de licitação. Será o primeiro projeto desse tipo no país, com investimento de mais de R$ 50 milhões, mas sem custos de construção para o Poder Público, nem geração de poluição. Se realmente sair do papel, será uma baita sacada, tanto do ponto de vista de gestão de recursos quanto ambiental. Digo “se” porque, caso você acompanhe a coluna regularmente, sabe que a máxima do “eu só acredito vendo” é uma constante por aqui, dada a quantidade de promessas que seguem no limbo do esquecimento, especialmente em se tratando de obras públicas.
O assunto também demonstra outro comportamento, esse não tão positivo: a necessidade que nós, seres humanos, temos de tentar encontrar problemas onde eles não necessariamente existem. 

Quem trabalha com comunicação precisa ter um quê de desconfiança, muitas vezes tentando encontrar algo negativo a que se apegar, admito. É importante que o jornalista entenda o assunto para que, ao transmiti-lo a seus leitores, ouvintes ou telespectadores, o faça da maneira mais completa e clara possível. E isso foi feito. O projeto é perfeito? Certamente não. Talvez apareçam falhas no decorrer da implantação que – espera-se – poderão ser corrigidas. Mas isso não exclui o fato de ser uma iniciativa que vai permitir que, pela primeira vez, uma cidade brasileira consiga eliminar o lixo que produz de forma sustentável. E não é pouca coisa: são 110 toneladas de lixo por dia – você não leu errado: por DIA – que produzimos, uma média de pouco mais de 900g por habitante a cada 24 horas.

Mesmo que não seja perfeito, mesmo que haja no contrato cláusulas passíveis de dupla interpretação ou até mesmo algum item que possa vir a trazer problemas futuros para o Poder Público, ainda assim algo está sendo feito. E vai ser muito melhor do que aquilo que temos hoje. Ou você acha que esse ciclo de achar que o lixo “some” só porque sai da sua casa é algo que vai durar para sempre? O que fazemos hoje é transferir o problema de lugar e fingir que ele foi resolvido. Se me apresentassem uma solução para que o lixo literalmente sumisse, eu faria tal qual a prefeitura fez: seguiria firme na busca por colocá-la em prática, afinal, pior do que está não fica.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 681
10/11/2018 08:00:42
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA