A síndrome da procrastinação

Por: Felipe Sandrin | 08/10/2018 06:00:07

Por quantas vezes ao vermos ou ouvirmos falar sobre dada situação nós resumimos a solução: ‘É só ele(a) tomar vergonha na cara e sair disso’. Seja em uma relação desgastada, um emprego que não traz mais nenhuma realização ou qualquer outra área de nossa vida, todos nós um dia submetemos alguma pessoa ao simples julgamento do: a culpa é dela.

A síndrome da procrastinação não é exclusiva a pessoas fracas emocionalmente ou mesmo dependentes de algum sofrimento, essa síndrome está presente em praticamente todos nós e ela é assim tão eficaz justamente pela nossa incapacidade de admiti-la. Por exemplo, ao vermos uma mulher que sofre constante abuso, que é humilhada e agredida fica nítido para nós como esta deveria proceder, mas por que ela não o faz prontamente? Talvez pelo mesmo motivo que 72% dos brasileiros que se declaram infelizes em seus trabalhos não conseguem buscar outros trabalhos.

O que era seis meses vira um ano, um ano vira dois, três, e à medida que o nosso tempo de tentativa avança mais difícil será sair de dada situação. Quem de nós não tem aquele amigo que há tanto tempo já reclama de sua relação, mas nunca tomou coragem para sair dela? Pois é assim que os anos se multiplicam até se tornarem correntes a nos fazerem esquecer que um dia já fomos livres.

Não, não é fácil sair de uma situação que nos acompanha por um longo tempo. A esperança de que as coisas mudem é um disfarce para os reais motivos que nos impedem de acordar do pesadelo. No fundo sabemos que a mudança não virá, mas ainda assim este mundo sofrido no qual você vive parece mais seguro do que ir lá fora e recomeçar. Aceitamos ao fim o sofrimento desesperançoso porque tememos o mundo novo que se desenhou enquanto estávamos ocupados acreditando que ainda dava tempo de mudar o que já não nos agradava.

O julgamento social surge, sim, como um método cruel de vingança e certo alívio, apontamos o dedo para outros como se fôssemos uma peça de dominó já derrubada. O efeito cascata das decisões erradas que nos agarram como se não pudessem ser desfeitas são por fim a herança e o preço das disputas dentro de nosso meio de existência. Como escreveu Schopenhauer: ‘A única alegria da ovelha é ver o lobo devorar a ovelha ao lado’. Temos então como grande distração social e alívio para nossa culposa procrastinação os vizinhos. Sim, olhamos os vizinhos e ao descobrirmos suas covardias e falhas conseguimos maquiar as nossas.

A resposta parece simples, mas se todos a sabem por que tão poucos são aqueles que conseguem diagnosticar e curar seus círculos de infelicidade com clara antecipação? Se você parar para pensar agora nas situações que mais lhe incomodam certamente perceberá que em dado momento você sabia para onde aquilo iria. Por que então você se boicotou e permitiu-se continuar aquilo? 

A razão não é a voz que a maioria de nós ouve. Nossas emoções comandam a maior parte de nossas decisões. Insistimos não por acreditarmos na mudança, insistimos porque o desconhecido nos traz mais medo do que a insatisfação que contemplamos todos os dias durante anos.

Então antes de condenarmos nos questionemos: sobre quais alicerces eu ergo minha vida mesmo sabendo a fragilidade do material que se compõem? Para o que eu estou dando desculpas? Quais promessas e desgostos que eu tenho arrastado esse tempo todo?

Se você não pode responder a si, então são irrelevantes as respostas que você acha ter para os outros.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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