O que exatamente se comemora no Carnaval?

Por: Felipe Sandrin | 02/05/2016 00:00:00

 

O Carnaval não brinda a cultura brasileira, muito menos é a representatividade de um povo alegre e hospitaleiro: o Carnaval simplesmente contempla a mediocridade.
As celebrações ajudam a contar a história da humanidade. Há povos que comemoram meses de colheita, outros cultuam dias específicos, nascimentos e mortes. Há banquetes para antigos grandes reis e épocas de reflexão para todas as tribos.
Sim, a simbologia é fundamental e marca mudanças. Mas qual o símbolo desses ditos carnavais? Celebra-se a pobreza? Sim, pois quanto mais pobre o Estado, mais tempo dura a festa. Celebra-se o tráfico de drogas, a exemplo do que ocorre no Rio de Janeiro, onde quem mantém as escolas de samba são bandidos da pior laia.
O que celebra a menina no Carnaval? A falta de culpa por poder “ficar” com quantos ela quiser? E o homem? Celebre talvez justamente a queda da máscara, pois nesses dias de Carnaval pode este ser o que é, pode parar de fingir que há nele moral e índole de um homem.
E os Estados seguem dando dinheiro para essa festa que contempla a mediocridade de um povo que nada tem para comemorar. Ah, aliás, em Sergipe o TCE proibiu todos os gastos com o Carnaval em 53 municípios. Por quê? Prepararem-se para ficar indignados: o Carnaval foi proibido, pois a prioridade é pagar os professores que estão sem receber. Sim, que absurdo, deixar de realizar o Carnaval para pagar professor. Para que servem os professores, afinal?
É banal escrever isso, que um professor não serve para nada, mas todos os anos indiretamente milhões de pessoas vão para a avenida festejar o dinheiro público sendo investido em festas. Turismo? Para que turismo? Vamos trazer turistas aqui para serem roubados? Vamos trazer mulheres para sofrerem tentativas de estupro como aconteceu com uma japonesa em Fortaleza nesta semana?
Eu jamais convidaria um amigo estrangeiro para vir curtir o “Carnaval brasileiro”, sabem por quê? Por simplesmente entender que é ridícula a hipocrisia deste povo. É ridícula a forma como mulheres são assediadas em ônibus e na rua; como ser malandro se tornou sinônimo de ser esperto; como estados quebrados conseguem dar dinheiro para um evento comemorativo. Comemorar o quê?
Enquanto isso, nos clubes fechados, os blocos fazem um brinde. Minha geração brinda a incapacidade de ler, de progredir e de ser algo além de um cavalo puxando a carroça da economia. Ou brindam para suportar o fato de sentirem que se tornaram o retrato de tudo aquilo que na escola eles aprenderam a desprezar: corruptos, lacaios, dedos de uma mão que funciona na pequena vigarice do dia a dia.
Alguns pulam e brindam o Carnaval, outros, entram em luto e sentem a vergonha de ver aquele monte de bananas com sorriso na cara, copos cheios e cabeças vazias. Receptáculos a contemplarem a morte de vários futuros deste Brasil que não avança, não anda e nem sequer rasteja. Um Brasil que pula, finge alçar voo, mas que, por fim, volta ao solo exibindo o sorriso mais perdedor que se pode ter, o sorriso de quem aceitou viver por migalhas, o sorriso de quem acorda para ir trabalhar insatisfeito, o sorriso de quem finge que um “carnavalzinho” não faz mal a ninguém.
E todo ano é assim, todo ano tem o discurso: “Quem não está feliz que fique em casa. Quem não está feliz que vá viver em outro país”. É o que diz o folião brasileiro que, após a festa, acorda cedo repetindo: “Esse Brasil não tem mais jeito”.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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