Os bons são maioria? Espero que sim!

Por: Greice Scotton Locatelli | 17/08/2018 06:00:00

Tem dias em que é difícil acreditar naquela máxima de que os bons são maioria. É cada caso que aparece – alguns chegam a virar notícia – que é de perder a fé na humanidade.

Recentemente, em Bento Gonçalves, duas senhoras foram vítimas de um golpe dentro de uma agência bancária. Elas aceitaram ajuda de um homem que se passou por funcionário do banco e usou diferentes táticas para levar o dinheiro: uma delas foi trocar o envelope, depositando na máquina do autoatendimento um vazio, e a outra, simular o depósito sem entregar o comprovante. 

Casos como esses fazem com que nós, jornalistas, vivamos um dilema constante: divulgar ou não? A reposta parece óbvia: “claro que sim”, especialmente para alertar tanto futuras possíveis vítimas quanto os próprios bancos, para que adaptem a segurança. Só que tem outro lado que nem sempre se mostra tão simples de decidir: e se outras pessoas mal intencionadas – mas pouco criativas se comparadas aos golpistas que lesaram essas senhoras – resolverem se “inspirar”?

Dia desses, conversando informalmente com o major Martinelli, comandante da Brigada Militar de Bento, ele sugeriu que eu não divulgasse um exemplo prático da aplicação de uma nova ferramenta de monitoramento. Era o caso de um bandido que havia ganhado fama e que poderia ter sido capturado caso a tecnologia tivesse surgido antes. Na hora, confesso que achei que seria um prejuízo para o leitor, afinal, quer coisa mais assertiva para fazer alguém entender algo difícil do que dar um exemplo prático? Mas ele me convenceu a omitir a informação alegando que, pela experiência dele, a minha boa intenção poderia “inspirar” gente de má-fé a tentar ganhar fama do mesmo jeito. Fui obrigada a concordar: certos legados é melhor que sejam ignorados.

Mas voltando ao caso do banco: você pode julgar as vítimas, pensando que foram ingênuas em acreditar ou em não conferir se eram realmente funcionários – coloque-se no lugar delas, você desconfiaria de alguém usando um crachá que oferece ajuda? Ou ignoraria a pressa e entraria na agência com a pessoa que ofereceu ajuda para confirmar se ela é mesmo funcionária? Aliás, você acha que está imune, que nunca vai acontecer com você? Tomara, mas o risco existe. 

Você também pode culpar os colaboradores reais ou os guardas do banco, por não terem percebido a ação dos bandidos – só lembre-se de que o caso aconteceu no dia 6, tradicionalmente na semana em que as agências lotam e fica aquela confusão típica. 

Ainda, você pode usar de superstição e culpar o fato de estarmos no mês do desgosto – eu não teria argumento para esse fato – ou acusar a tecnologia, afinal, pessoas idosas são obrigadas a utilizarem máquinas em vez de serem atendidas pessoalmente, como era há alguns anos. Se fossem fazer o depósito nos caixas, não teriam sofrido o golpe.

Arranje o argumento que melhor se encaixa nas suas vivências: isso não muda o fato de que pessoas de má índole estão entre nós o tempo todo, esperando um momento de distração, uma pessoa que demonstre vulnerabilidade ou um dia de agências bancárias lotadas para agir, com a lábia e a maldade que lhes são peculiares. Todo cuidado é pouco e eu, sinceramente, já não sei mais o que fazer diante de tanta gente mal-intencionada à espreita.

Nesse caso do banco, nossa decisão foi divulgar o caso por entendermos que há mais possíveis vítimas do que pessoas que se inspirem na maldade alheia, tal qual aconteceu há algumas semanas com o chamado “golpe do amor”. Mas, confesso, fico com o coração na mão, como dizem, a cada novo caso que surge. O jeito é se apegar à frase que garante que “os bons são maioria” e torcer para que seja verdade.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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