A ponta da caneta mata mais do que qualquer bandido

Por: Felipe Sandrin | 17/08/2018 06:00:35

Por favor, peço que me empreste sua imaginação por alguns segundos, quero que você pense na a seguinte situação: sua esposa, namorada, mãe, irmã – imagine a figura feminina que mais lhe é querida – agora, pense que é um dia da semana, essa pessoa deveria ter chegado do trabalho há mais de uma hora, você fica preocupado, liga, ela não atende. Você parte para procurá-la, em meio a esse desespero recebe uma ligação da polícia, ela está na delegacia. Ao chegar lá você descobre que essa pessoa que lhe é tão querida foi agredida, roubada e vítima de um estupro. Em um retrato falado surge o rosto conhecido de um homem que está no semiaberto, ou seja, essa pessoa que você tanto ama e que agora nunca mais será a mesma foi atacada por um bandido que algum juiz decidiu soltar. Um juiz decidiu que aquele monstro estava apto para novamente viver na sociedade.

Diga: como você se sentiria diante dessa situação? Pergunto: você sabe nesse momento quantos crimes ocorrem na cidade cometidos por homens que juízes julgaram aptos a estarem novamente em sociedade? Questiono você novamente: o argumento “a cadeia torna o bandido pior” lhe causaria conforto diante de uma situação na qual alguém que você ama foi vítima desse marginal que deveria estar preso?

Pois veja, na última quarta-feira, novamente, nos deparamos com essa normalidade de nosso Judiciário. Em Bento Gonçalves dois homens que balearam uma comerciante e uma pedestre em um assalto foram soltos sob a justificativa de que não representam perigo à sociedade. Esses dois homens, no dia quatro de maio, haviam atirado na perna de uma mulher que ficou nervosa durante o assalto e não conseguia abrir a caixa registradora. Na época, uma operação chamada “Operação Captura” foi feita para localizar e prender os autores do crime.

Polícia prende, juízes soltam. Não é à toa que a população se volta cada dia mais contra as instituições e seus representantes. Estupradores, assassinos, bandidos da mais alta periculosidade são liberados semanalmente sob o argumento de que a cadeia não pode corrigi-los, ou mesmo, justificando a soltura por conta da superlotação do presídio central.

Pergunto às pessoas que já perderam alguém pela violência praticada por um indivíduo que deveria estar preso: qual o sentimento que você tem por quem assinou a soltura daquele que matou um ente querido seu?

O Estado trata o cidadão como lixo. Somos carne fresca para assassinos. Mulheres não possuem direito algum para se defenderem. Estupradores e assassinos perambulam pelas ruas e o cidadão que acorda cedo, trabalha e busca viver da forma mais honrada possível está preso ao medo e ao ódio de todos os dias perceber que as instituições estão podres e despreocupadas com a vida daqueles que ao fim movem verdadeiramente nosso país.

Uma desistência sistemática vem ocorrendo nos últimos anos, não temos mais amor pelo nosso país, a palavra Brasil não se potencializa mais em um espírito elevado. Nossa moral está no lixo, nossos sentimentos são de abandono e aqueles que deveriam nos representar fogem de qualquer responsabilidade.

Há quem diga que caminhamos ao fundo do poço, mas há muito tempo já chegamos lá. Um país que não protege suas mulheres e crianças, um país que desarmou os homens de bem e permite monstros ostentarem metralhadoras. Um país que já morreu faz tempo. Morremos na ponta da arma de um marginal e na ponta da caneta de juízes que assinaram atestados de morte para a próxima vítima daqueles bandidos.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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