Os nossos limites

Por: Greice Scotton Locatelli | 24/08/2018 06:00:20

O seu direito de fazer algo termina onde começa o meu direito de fazer algo. Por exemplo: se você é fumante, seu direito de fumar termina onde começa o meu, que optei por não consumir cigarros.O meu direito a ouvir música alta vai até onde começa o seu de descansar em silêncio.O seu direito de chegar vivo em casa precisa ser maior do que a minha pressa., que pode provocar um acidente fatal. A sua decisão de não vacinar seu filho por acreditar em alguma teoria “conspiracionista” deve ser repensada à medida que meu filho tem direito de não ser contaminado por alguma doença que o seu contraiu por não ter sido vacinado. 

Mais do que respeito, é uma questão de empatia, de capacidade de se colocar no lugar do outro.

Mas, infelizmente, empatia não tem sido uma atitude muito comum entre os seres humanos, pelo menos não no Brasil. Prova disso, é a volta (absurda!) de doenças que haviam sido erradicadas, como o sarampo e a poliomielite - aliás, fique atento: a campanha nacional está nos últimos dias (segue até o dia 31) e a vacina do sarampo também está sendo aplicada em adultos de até 49 anos. Há todo um movimento nacional explicando que as poucas teses de que as vacinas fazem mais mal do que bem já foram derrubadas há  muito tempo, mas mesmo com campanhas em todo o país, ainda tem muitos pais e mães resistindo à imunização.

E esses são só alguns exemplos do que a falta de se colocar no lugar do outro provoca. Apesar de empatia não ser um consenso por aqui, um exemplo vindo do Reino Unido e um alento. Embora polêmica em alguns aspectos, a criação de um aplicativo que permite doar valores para moradores de rua pelo celular e via cartão de crédito demonstra um amor ao próximo fora do comum. A criação foi de estudantes da Universidade de Oxford, que perceberam que em tempos em que poucas pessoas andam com dinheiro, tornou-se difícil ajudar quem precisa doando esmolas. O legal do projeto é que os moradores de rua que topam participar podem contar sua história de vida e tudo que é arrecadado é administrado por uma organização não governamental, que compra os suprimentos conforme a necessidade de cada um dos atendidos e posteriormente entrega.

Você pode fazer o que todo mundo faz: pré-julgar, chamar de “bêbado”, “vagabundo”, dizer que eles poderiam estar trabalhando. Só lembre que alcoolismo é uma doença e desemprego tem sido, infelizmente, a realidade de muita gente, independente de ter ou não um teto para morar. Claro que há exceções - positivas e negativas - mas é preciso lembrar que estamos falando de seres humanos e que ninguém está imune às tempestades da vida.

Particularmente, sempre tive muita curiosidade em saber como essas pessoas sobreviviam sem a garantia de um teto. Quando criança, lembro de fazer “planos” de que quando tivesse a minha casa construiria uma área na parte da frente para que mendigos pudessem se abrigar do frio e, confesso, até hoje analiso fachadas pensando  se elas poderiam ou não serem utilizadas por moradores de rua. Só que o pensamento infantil é bem diferente da realidade que nós, adultos, conhecemos. Ah, quem dera fosse tão simples resolver problemas assim.

Como jornalista, tive algumas poucas oportunidades de conversar com moradores de rua e isso fez com que minha empatia aumentasse ainda mais: são casos de pessoas que se perderam no vício em bebida e/ou foram abandonadas pela esposa/esposo e filhos - histórias capazes de cortar o coração. É lamentável ver que o fundo do poço existe, sim, e que ele está cada vez mais presente na rotina de praticamente todas as cidades, mesmo as menores.

Meu desejo é que possamos não apenas praticar nossos direitos de forma menos individualista, pensando em como nossas atitudes afetam os outros, como praticar um pouco mais a empatia, não fazendo com as pessoas com quem convivemos o que não gostaríamos que fosse feito com a gente. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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