Devo, nego e não pretendo pagar

Por: Greice Scotton Locatelli | 31/08/2018 06:00:56

O telefone toca e a pessoa do outro lado da linha insiste em conseguir o meu número de CPF. É a segunda ligação da mesma imobiliária na semana – a primeira havia sido para pedir quando eu pagaria uma determinada dívida. Dessa vez, o objetivo anunciado é inserir meu nome em uma lista de devedores, já que eu seria fiadora de uma colega de trabalho que não pagou aluguel de um apartamento. Depois de muito discutir e de ouvir “poucas e boas”, a funcionária da imobiliária finalmente entende que o meu sobrenome não é nem parecido com o da pessoa que ela procura. Ela (assim como a colega que ligou na semana anterior) deduziu, pelo meu primeiro nome e pelo meu local de trabalho, que eu fosse a cliente inadimplente e não se certificou antes de ligar – nas duas vezes! Para piorar, nem sequer se desculpou e ainda desligou o telefone na minha cara.

Mais tarde, no mesmo dia, uma conhecida atende ao telefone no trabalho. A funcionária de um escritório que faz cobranças para um banco liga pedindo por um colega dela que já não está na empresa há mais de dez anos. Ela explica que o cadastro deles está (mega) desatualizado e a atendente pergunta se você sabe onde encontrar a tal pessoa porque ela está devendo há meses e não retorna as ligações nem os e-mails. De quebra, ainda informa que a dívida chega a quase R$ 5 mil.

As situações acima descritas têm sido assustadoramente comuns e demonstram vários comportamentos: 1) As pessoas estão devendo cada vez mais. 2) Por falta de condições (ou malandragem mesmo) fazem de tudo para “dar uma curva” nos cobradores, inclusive prestando informações falsas. 3) Não há uma preocupação de quem vende em conferir os dados ou manter os cadastros atualizados. 4) Lojas e bancos têm lançado mão de todas as alternativas possíveis para tentar diminuir o impacto da inadimplência, quase que desesperadamente. 5) Muitas vezes, na tentativa de cobrar, fica clara a falta de ética, de organização, de noção de legislação e de profissionalismo – quer exemplo melhor do que o da imobiliária citada no início do texto? 6) A desorganização de algumas empresas acaba incomodando (insistentemente) quem não tem nada a ver com a inadimplência alheia – e muitas vezes isso se repete mesmo depois de informar que a pessoa não trabalha mais na empresa ou que o número para o qual os cobradores ligam não é de quem ficou devendo. 

Atitudes como a dessas duas empresas vão contra o que prevê o Código de Defesa do Consumidor, que veda a cobrança de modo vexatório: “Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça”, diz o artigo 42. Determinadas práticas, como a da imobiliária, são consideradas, inclusive, crime, de acordo com o artigo 71 do mesmo Código. “Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer: pena de detenção de três meses a um ano e multa”.

Moral da história: a expressão popular “devo, não nego, pago quando puder”, que descreve a situação financeira de muitos consumidores brasileiros diante de bancos, lojas, financeiras e prestadoras de serviço talvez já não se aplique mais. Junte a falta de condições ou o desinteresse em quitar os débitos com uma falta de ética e profissionalismo preocupantes por parte de quem cobra e está feita a novela. Pior é que, invariavelmente, os bons é que pagam o pato, seja no aumento do custo para equilibrar a inadimplência, seja na hora de lidar com cobradores que não sabem o que estão fazendo. 
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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