Devo, nego e não pretendo pagar – Parte 2

Por: Greice Scotton Locatelli | 09/06/2018 06:00:38

Inadimplência tem sido um problema recorrente que demonstra a fragilidade econômica do Brasil e reflete a situação dura que muitas famílias têm vivido. Mas há outro lado dessa moeda: quem tem dinheiro a receber e fica na mão. 

Algumas são empresas grandes, para as quais se pode pensar que não há tanto impacto – mas existe: além de diminuir o lucro – e consequentemente o investimento que ele permitiria –, o montante devido pode acabar obrigando a empresa a diluir o prejuízo aumentando o valor final para o consumidor. Para os “pequenos”, o tufo é ainda pior: há muitos profissionais e micro e pequenas empresas para os quais a inadimplência é fator que determina o sucesso ou o fracasso do negócio. Conheço gente que largou mão de fazer determinados serviços tipo freelancer pela impossibilidade de garantia de recebimento.

O assunto é delicado, exige conhecimento legal e, como eu citei nesse mesmo espaço anteriormente, no desespero de receber muitas empresas têm se perdido na ética e no profissionalismo. Por outro lado, as tentativas se justificam, afinal, o produto ou serviço foi entregue e teve um custo mínimo. 

A tecnologia deu uma forcinha na tentativa de minimizar o impacto: surgiram várias empresas que aceitam cartões de crédito, por exemplo, de forma menos burocrática e onerosa do que as tradicionais bandeiras. Já vi vendedores de abacaxi com seus carrinhos de mão aceitando cartão de crédito ou débito – só para citar um caso. Mesmo assim, todo cuidado é pouco.

Facilitar o pagamento é, sem dúvida, uma boa estratégia para aumentar as vendas. Quanto mais opções o cliente tiver para parcelar ou espaçar o pagamento, mais ele tende a comprar. Tanto que muitas lojas oferecem descontos somente para quitação parcelada. Certa vez, comprei um micro-ondas que custava R$ 399 em 10x no cartão (havia possibilidade de pagar via carnê também). À vista, o valor subia para R$ 499.

Parece estranho, mas é uma técnica para que a pessoa volte todo mês ao estabelecimento e fique tentada a comprar outros produtos – no meu caso, serviu para lembrar da loja durante os 10 meses em que o nome dela apareceu na fatura do cartão e ficar indignada – tanto que nunca mais comprei nada lá. Sim, eu tenho consciência de que eu sou um caso à parte.

O problema desse parcelamento a perder de vista é que muita gente se perde na hora de fazer as contas: parece “pouco” pagar R$ 399 em 10 vezes,  são só R$ 39,90. Mas multiplique isso por várias compras pequenas e o saldo se torna enorme. O mesmo vale para o pagamento em cheque a perder de vista. Ora, se em agosto você paga o rancho com cheque pré-datado para novembro, estará sempre em dívida: as compras de setembro só serão pagas em dezembro, as de outubro em janeiro e por aí vai. Afinal, é algo que você tem que comprar todo mês. 

Facilitar o pagamento pode atrair mais clientes, mas de nada adianta ter mais vendas se não receber por elas. É o caso de aprovar quitação em boleto, por exemplo, que não dá garantia nenhuma de que será pago efetivamente. Aliás, especialistas recomendam uma série de medidas preventivas, como consulta aos cadastros de inadimplentes, definição de uma data de pagamento que coincida com o período em que o cliente recebe seu salário e oferta de formas de pagamento com menor índice de risco. 

Infelizmente, endurecer a concessão de crédito é uma das poucas formas eficazes de resolver esse problema. Só que, como tudo na vida, mais uma vez os bons acabarão pagando pelos ruins. O alento é que já existe um Projeto de Lei do Senado em tramitação na Câmara dos Deputados, visando a criação de um cadastro positivo de crédito – tipo um SPC, mas para quem está em dia com as contas. Talvez ajude a minimizar essa tendência de generalização e possa diminuir também os prejuízos de quem vende.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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